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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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27
Fev20

My China is better and bigger than yours

Rita Pirolita
 
Será o que muitas matriarcas estrangeiras que ainda são do tempo de apreciar estas coisas pensam da louça trazida por colonialistas, nas raras vezes que vão jantar a casa de alguém. 
Quem recebe faz questão de exibir gosto requintado em especiais ocasiões, deixando que se cubram de gordura e molhos viscosos pratos pintados à mão, decorados com grãos de arroz ou finas flores de amendoeira, passarinhos ou rosas, azuis azulejo assentes em branco rosto de gueixa! 
Tudo de uma delicadeza bucólica estonteante, como as cálidas mulheres orientais de bolas rosáceas nas bochechas, com mãos longilíneas e pescoço de garça. 
Chávenas e copos cintilantes com rebordo dourado, tresandam a mofo de madeira da cristaleira, o chá pode não ser oriental, a comida também não e o vinho muito menos.
Depois desta generalização de pendor tão internacional, vamos agora ao caso muito específico de Portugal.
As mães exibem orgulhosamente e com cuidado como peça de museu, o melhor conjunto Vista Alegre e os copos Cristal d`Arques, em aniversários e jantares, no Natal e de quando em vez em lanchinhos com a familia emigrada, só para não pensarem que somos uns pobretanas atrasados e não sabemos o que é coisa fina. 
Não sei se todas as mães que têm 'china' o fazem mas as portuguesas lixam-se à grande, porque cada vez que usam esta parafernália que não passa de pedaços de caco bem pintadinho, quando as visitas desaparecem vão de requitó para a cozinha até para lá da meia-noite, lavar louça à mão, porque o conjunto foi deixado pela bisavó e nessa altura não haviam máquinas de lavar louça, por isso os lindos pratos não aguentam um detergente abrasivo ou mesmo uma esfregadela mais intensa, quase tudo tem que ser lavado por mãos de fada.
Os copos de cristal ficam manchados na máquina, têm por isso que ser postos a escorrer ao ar, sem toque de pano, se não ficam cheios de pêlo, já para não falar que tudo que tenha dourados não pode ir ao micro-ondas, esqueçam portanto a ideia de aquecer restos do dia anterior.
Mesmo assim, ainda se acredita que arejando um enxoval deste gabarito se está a dar uso digno nas alturas certas mas também que não sejam assim tantas para não se partirem muitas peças e depois andarem as visitas a comer num folclore de temas florais desirmanados, já que os nossos avós até para o gato punham pratos do cavalinho da extinta Fábrica de Sacavém.
Acho que os mais raros são os castanhos...os pratos, não os gatos!   

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