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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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15
Mai19

Jantares de amigos

Rita Pirolita
 
Começo já por informar que nunca organizei nem fui a nenhum jantar de amigos da escola mas tenho relatos que acredito serem muito fidedignos e tenho amigos que encontro de vez em quando, passado muito tempo, é quase o mesmo que os jantares mas sem comida pelo meio, um café talvez e é o suficiente para confirmar a decadência do brilho da juventude, aquisição de gestos lentos, olhos desiludidos e húmidos de tanto abrir a boca, corpo cansado e pernas inchadas, mãos desleixadas e queda de cabelo, mamas grandes e ancas largas, manchas na roupa e cheiro a alcool ou leite bolsado, cabelo oleoso, camisa por engomar ou t-shirt com buraquinhos de fim-de-semana, que o pessoal gosta de andar à vontade...
 
Nos jantares parecem hologramas, projectam o que não dá para esconder.
Eles põem o melhor e único fato que têm, como se trabalhassem num escritório, embora estejam desempregados desde que terminaram o curso, é o fato das entrevistas, elas lá se equilibram num salto alto que não usam desde 10 quilos e 10 anos atrás, disfarçam a dor de pés com um sentar rápido de quem está esfomeada, é maior que a dor de pernas quando passam a ferro durante 2 horas em pleno verão
O espanto e curiosidade começam logo na entrada do restaurante enquanto esperam uns pelos outros. Reconhecer algumas pessoas torna-se tarefa árdua de memória e perguntas ao colega do lado...'Quem é aquela? Nunca a vi tão gorda!' ou 'Grande avião, era a mais feia da turma!...'ou ainda, 'Ele ganhou barriga mas aqueles brancos dão-lhe charme.'
Quando já fizeram o reconhecimento de ADN uns dos outros, sentam-se e começam o jantar de menu e preço pré-combinado.  
Começam a vir para a mesa as histórias dos casamentos falhados, dos divórcios litigiosos, de saídas do vicio da droga e entrada no vicio do alcool, de quem morreu de acidente, overdose ou apanhou SIDA, de quem emigrou, quantos filhos tiveram ou deixaram de ter...
Os divorciados saem do jantar com contactos trocados para combinar encontros, na esperança de saltarem para a espinha de quem lhes escapou na secundária, outros voltam à vidinha tuga e eu nunca porei os pés num evento deste género, tenho desgraça que chegue na minha vida.

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