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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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03
Ago19

Enjoos da Maria

Rita Pirolita

Mensalmente e até fora da menarca, tinha Maria quase sempre enjoos de gravidez, sem nunca estar em tal estado, imaginava ela que se o seu estado habitual era piedoso que faria somado a vómitos de concepção. Maria sofria assim de prenhice desde que nascera, náuseas, má disposição, uma pisca a comer e barriga sempre inchada na digestão, para ai de pré-natal de 4 meses, seriam os seus sucos gástricos um veneno doseado no seu pequeno estômago, que se ia libertando em doses autoimunes, que não matam mas moem?...
Com amigos ou namorados arranjava sempre maneira de se escapulir a jantares de aniversário, feijoadas de época ou fritos escleróticos, farinheiras ou ovos a cavalo de qualquer coisa, não lhe podia nem o cheiro chegar às penugens do nariz que logo se agoniava, o estômago começava em cãibras, o coração apertava e não raras vezes sentia um zunido nos ouvidos, uns diziam que seria doença do equilibrio de ouvido interno, síndrome de marinheiro em terra, que seria maus figados, azedume no pâncreas ou bilis estragada, mais azeda que o costume, vesícula preguiçosa, depressão, ioga ou chá verde podiam amainar, não comer feijões ou feijocas, hortaliças escuras, massas, sementes, vinhos ou cervejas, fermentos ou até alface...
Coitada da Maria que já não tocava em carnes mortas, brancas ou vermelhas, fazia para lá de uns bons 20 anos, ovos ou leite, só de os ver o figado encarquilhava-se, os olhos fechavam e o lábio superior levantava de um lado em nojo completo, quando para mais ainda lhe estarem a dar conselhos de mais restrição, que iria ela comer? Caldos de arroz e bifes de cenoura até ao fim da vida?...
Sabiam lá o seu sofrimento, todos os exames lhe tinham sido feitos, a dormir ou acordada, análises, contrastes, ecos, tubos e tubinhos, biópsias, agulhas grandes e pequenas e nada se encontrava, andava Maria contente por nada ter e ao mesmo triste por nada lhe encontrarem que justificasse tão mau estar!
Seria do cérebro? Estaria doença de loucura a agravar-se, já teria ela nascido com genes de tolice? Depressão? Falta de arroto ou peido não eram felizmente!
Com a idade tudo piorou, durante décadas sofreu enjoos de mulher fértil e grávida, na menopausa sofreu os humores mal parados, os calores-fogueira, uma tiróide que se revelou hiperactiva, uma libido que secou, irritação e procura de solidão ou que pelo menos a deixassem em paz a um canto sem a incomodar, a presença de pessoas por perto ainda para mais com solicitações parvas e fúteis, a esta altura e à visão de Maria seriam todas, tornavam-na agressiva e irascível, os animais acalmavam-na e eram sempre bem-vindos.
Estava quase sempre perdida em altos e baixos de vontade, ora muito confusa ora logo a seguir arrumava tarefas, sentimentos ou sofrimento em gavetões de alma, não tinha com quem puder falar, ninguém a compreenderia nem ninguém deveria ser incomodado com lamechice menopausica, essa coisa tão normal no mundo das mulheres que têm o privilégio de lá chegar! Também ela não queria partilhar ou que a calessem apenas dizendo-lhe sim, sim a tudo como aos miúdos chatos se faz. Estava a passar uma fase única na sua vida, muitos diziam, achava ela que tudo é único nem que se repita por milhões de anos em tempos ou espaços diferentes!
Nada desta normalidade convencia a anormalidade que Maria sempre sentiu, um incomodo de estar num corpo sempre estranho em cada recanto, nunca reconhecido como seu, um desassossego neste planeta que também não sentia ser o certo, nascida em época desfasada, parecia ela que se tinha enfiado na máquina do tempo em hora errada, um estado humano que nunca lhe foi familiar, queria ela às vezes ser um cão, seria mais simples de existir, de mais curta vida, menos ou nenhumas indagações, poucas decisões e muitas vontades sem hesitações existênciais!
Nada mais lhe restava senão viver o melhor que sabia e sem nunca em minúsculo amparo que fosse, lhe terem enunciado como o fazer!

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