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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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19
Mai19

Emigra tuga

Rita Pirolita

 

 
Não vou falar do Jean Pierre que estava sentado na cadeira em francês, depois caiu e partiu a cabeça em português vernáculo, falarei antes da imagem que o emigrante tuga cultivou e que povoa o nosso imaginário num misto de nostalgia e piroseira.
Na altura do Salazar quem conseguia escapar da miséria para o estrangeiro, deixava para trás muitas bocas para alimentar com o 25 de Abril continuaram a emigrar mas deixaram de fazer tanta filharada

Agora que vejo imagens desses tempos pergunto?  
O que levaria esta gente a abandonar uma casa modesta com um pedaço de terra, único sustento da família e ir viver para os bidonville, arrabaldes de cidades com barracas, esgotos a céu aberto, lama, doenças, fome?...
Como não havia internet, estas pessoas de certeza que foram todas ao engano
Alguns sonharam tanto e trabalharam ainda mais que por lá ficaram, nunca quiseram abandonar o resultado de tanto suor e sangue, afogados em saudade até ao fim da vida.
Esta vaga de emigrantes que se deram tão bem ou tão mal, nunca foram a um café ou jantar fora, para poupar para a construção da casa de 'vacanças' na terrinha, havia de tudo para todos os gostos no catálogo 'Le plu bele Mesons ao Portugal', casarões, palacetes, chalets e até mesmo miseráveis imitações de 'chatôs' com ameias feitas em tijolo colocado na vertical. Tré joli!... 

Vinham em Agosto.
Aparatosamente chegavam em Mercedes para que toda a gente pensasse que faziam vida de reis lá pelas 'estranjas' o resto do ano, era esta a marca de carro preferida dos putanheiros e patos bravos no Portugal mas os emigras não andavam a par das modas no país de origem. Ninguém podia saber que tinham suado a estopinhas para pagar o aluguer da 'vuatura', interessava sim que viessem carregadas de 'suvenires', falava-se alto numa mistura de mau português e pior francês, os da terra arregalavam os olhos com tanta coisa reluzente e gestos esbanjadores dos familiares 'francius'.
Eram convidados para petiscar em todas as casas da aldeia, todos queriam saber como era lá nas 'franças' e pelo meio os 'francius' sabiam das beatices da aldeia, casamentos, homicídios, adultérios, óbitos, zangas, escândalos...
As noites quentes de verão eram passadas em alegre convívio nas casas dos tugas emigras.
Todos aproveitavam para fazer uma visita guiada à 'meson' que se destacava na aldeia por não ter nada de típico. 
Algumas pareciam casas de banho viradas do avesso, com revestimento exterior em azulejo brilhante com motivos florais berrantes, eu percebo, como tinham o meu querido mês de Agosto para gozar, não vinham com paciência nem tempo para andar a pintar as paredes todos os anos, se é piroso, foleiro e horrível, isso não interessa nada para o caso, é prático e pronto!
Ora, ia eu na visita guiada aos interiores, os sofás mantinham o plástico de fábrica, as flores de plástico estavam na mesma linha do azulejo, sempre hirtas, firmes e de baixa manutenção
Terminada a visita aos 50 'chambres' da 'villa', voltava-se a fechar as 'fenétres' e 'portons' para manter o  e cheiro a humidade bolorenta do mausoléu e iam todos petiscar para o anexo, onde efectivamente dormiam, comiam e cagavam. 
Sentavam-se em sofás piores que aqueles reservados aos cães e eram felizes até ao final do mês, numa folia alucinante de beijos, abraços, bebedeira e bailarico.
Iam embora com o Mercedes carregadinho de chouriças e presunto, na entrega da máquina, não sei se tinham agravamento no seguro de aluguer por causa do cheiro impregnado da carniça portuguesa.  
Ao fim de muitos e longos anos, quando estavam cansados de dar o litro nas 'estranjas' faziam as malas, traziam uma boa 'retrete' e morriam de ataque cardíaco com a emoção de finalmente habitarem o 'chatô' do reino perdido e longínquo

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