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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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16
Mar22

Dona Riquinha se fina

Rita Pirolita

Dona Riquinha habitava em Lisboa nas avenidas nobres e largas acompanhada pela filha médica, divorciada que à altura e até ao fim iria viver com um tumor nas sinapses, mandavam os colegas de profissão que aproveitasse a vida mais encurtada, como se a vida se pudesse comprimir em ficheiro quando a máquina anuncia desistir.
Dona Riquinha já levava em cima para lá de 85 anos e três quartos quando num dia que se previa igual a tantos outros, como são todos os dias dos velhos, heis senão que um fogo lhe começa no coração como uma máquina a vapor que entra em velocidade alucinante quase a deixar de tocar carril, o mareamento sobe ao couro cabeludo e rouba aquecimento aos pés, ainda com forças mas sem entrar em pânico, a manter a compostura como gente fina sempre faz e fará, queixa-se de afrontamento e coração cavalgudo, a filha com cabeça ocupada por tumor prefere chamar assistência de imediato.
Chegam bombeiros que descem corpo em agonia, após tentativas várias para afastar a morte Dona Riquinha deixa de bafejar, chama-se o médico dos óbitos e a confusão instala-se, como ninguém quer levar o corpo para a morgue pois acrescenta-se mais um à festa, venha a polícia porque estão todos no meio da rua mal parados, chega o ex-genro da defunta no momento da procissão para a esquadra num velório improvisado com polícia, bombeiros, médico, morta e família, todos para recolha e cativação de identificação, mesmo a de Dona Riquinha que jazia friazinha na maca.
Depois de horas em enrijecimento articular ainda ninguém tinha arredado pé da esquadra quando senão o ex-genro, homem calmo demais, sai porta fora e se dirige à primeira funerária que encontra que por acaso era logo ali do outro lado da rua, tinha ele sem saber e por irritação acabado com a soberba daquela gente em ganhar comissão ao chamar cangalheiro de seu interesse!
Se esta história não tivesse existido eu não seria capaz de a inventar tão bem!
Sim, Dona Riquinha teve um funeral calmo mas que deixou desconfortável memória do dia da sua morte!

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