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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

12
Fev20

Do Canadá para o Hawaii

Rita Pirolita
 
Por esta altura já todos os que me lêem, mais os que me conhecem e a quem eu disse que vinha viver para o Canadá, sabem que ando por terras frias como o carago!
Esta história, não inventada, não tem nada a ver com o frio mas pode ter a ver com as suas consequências, quiçá na contracção do cérebro de alguns portadores do que resta dele, que resulta em danos de diálogo e conhecimento mas muito humor, valha-nos ao menos isso!
Em quase todos os sítios a posse ou condução de um veículo exige um seguro, uns fazem-no outros não e habilitam-se a coisas menos simpáticas, aqui garanto-vos que convém ter, já em Portugal se fores brasileiro?...
Apesar de ser caro como a porra, o que pago aqui por mês dá para 9 meses em Portugal mas adiante que eu não sou de me chorar para angariar peninhas, já há muitas por aqui de pato e ganso, animais protegidos por estas bandas mas assim que atravessam a fronteira com os Estados Unidos para fugir ao congelado inverno, são mortos por caçadores e não é à fisgada, vos garanto!
Numa tarde fria mas solarenga, o moço dirigiu-se à nossa seguradora para suspender a cobrança do seguro automóvel por um mês que iriamos passar em Portugal, já que é tão caro, podíamos estourar o dinheiro em putas e vinho verde no nosso lindo recanto, tipo jangada de pedra do Saramago mas com dispensa de trazer Espanha colada a nós, que para férias longas nunca precisei de reboques!
Para ver coisas bonitas e não ouvir gente com sotaque de baba e língua grande demais para a boca que tem, fico em Portugal e com sorte a nação desliza até aos Açores e não gasto um balúrdio de avião!
Como estava a contar, o meu querido moço foi atendido por uma simpática moçoila que lhe tratou logo do cancelamento ali ao balcão, que eles aqui parecem muito despachados mas é só para disfarçarem que não percebem nada do que estão a fazer e que são pouco desenvolvidos da moleirinha, embora exponham os diplomas todos na parede, daqueles cursos de aperfeiçoamento tirados enquanto vão ao WC. 
Continuando...
A menina para ser simpática excedeu-se nas perguntas e penetrou na intimidade do meu gajo, como sempre fazem aqui, vivem todos hibernados em casa mas quando te encontram em locais de obrigatória interacção, que não uma casa quentinha de putas, aqui é tudo forçado com a desgraça do frio, fazem-te perguntas indiscretas ou seja são desequilibrados dos cornos e isso reflete-se nas relações sociais que são falsas como Judas e plásticas como a comida! 
Mas isto não tem nada a ver com as drogas e o álcool que estão quietinhos no seu canto, a não ser apenas e só quando lhes tocam. 
O álcool dá mau feitio e mau hálito mas a erva dá estupidez, maluqueira e cheiro a merda e peidos que me enjoa deveras, quando atendo alguém neste estado nauseabundo, pergunto logo para ver bem se não pisou merda lá fora, porque traz mau cheiro, recebo mais trombas de volta para as quais me estou a cagar! 
Não fumassem como eu faço ou metessem mais tabaco na coisa e misturassem com chamon, sempre disfarça com aquele cheirinho a incenso!   
Só para deixar aqui um exemplo de vizinha maluca e bisbilhoteira que são, uma vez fui ao banco levantar dinheiro para comprar um carro usado, embora me apetecesse comprar um Subaru novo para estourar em piões, a menina no banco perguntou-me qual a razão porque estava a levantar aquela quantia, que não era nada de especial diga-se de passagem e eu respondi tipo Obama I don't care, 'Because I can'! Saí do banco com o MEU dinheiro e ela ficou com as trombas bem amarradinhas atrás do balcão!
Caramba, ainda não consegui contar a parte melhor da história do moço e o texto já vai com uma tromba de elefante como daqui a Marte!
Mas a propósito das perguntas indiscretas e voltando à Martha norte americana do seguro, como a justificação do meu moço para o cancelamento temporário do seguro foi por motivos de viagem a menina feita simpática armada em esperta perguntou logo se era em trabalho ou lazer, lá está mais uma vez, deves ter muito a ver com isso, coisa que o moço lhe fez entender com muita ironia, coisa em que é muito bom, a gozar com a cara de quem se arma em parvo, respondendo que as suas viagens eram sempre por prazer e em lazer, à grande, sem olhar a gastos, por acaso é mentira, porque as viagens mais bonitas que já fizemos foi sempre nas alturas que quase não tínhamos dinheiro e uma delas foi à Austrália por 2 meses....a dormir em tenda e carros alugados, dois marmanjos grandes como a porra a dormirem numa tenda recomendada só para um, mas foi a mais barata e leve que encontramos na Decathlon e que conseguimos meter numa mochila de 35 litros, juntamente com meia dúzia de t-shirts, calções, bikini, saco-cama, escova de dentes, um bom casaco e um bom par de botas para caminhar, que já iam enfiadas nos pés!
Não dá para tudo, às vezes para ir onde sonhamos temos que abdicar de alguns confortos, que para mim são desafio e aventura e não digo isto à pobre, divertimo-nos como nunca no local à face da terra onde há mais bichos por metro quadrado que te podem matar em segundos! 
Abdicamos também de ter filhos para puder viajar, isto é o que digo a toda a gente, mas a verdade é que nunca os quis ter, os dos outros são giros o suficiente para eu os tolerar não por muitos segundos.
Além de sairem muito caro na criação e de mais tarde se transformarem inevitavelmente em adultos palermas, íamos ser acusados de brutal desleixo, por os expormos a perigos desnecessários em viagens tão radicais! 
Assim, todos os pais falsamente orgulhosos, porque já não podem devolver à origem ou livrar-se dos montes de carne, pêlo, unhas e com sorte algumas células cerebrais, o mínimo para sobreviverem, que me desejam uma ou várias gravidezes para me calar o pio e tirar o gozo, ficam a falar para o cuzinho do babuíno e a passar férias lá dentro de casa, cá fora na varanda, no jardim, no Fórum Almada, a fumar ganzas e a apanhar escaldões na hora do cancro na Fonte da Telha ou a assar sardinhas na Ponta do Mato, que até se lixam com um F bem grande!
Ora bem, a menina ao deitar o olho à ficha de cliente, viu que já tínhamos acumulado alguns cancelamentos e aposto ficou mordida de inveja, sim que eles aqui também sofrem do mesmo mal português, que por acaso não passa quando emigram, além de que só tiram duas semanas de férias por ano, gozadas  à bruta, a enfardarem e a embebedarem-se nos resorts all-inclusive, arregalam logo a pestana quando alguém goza mais tempo que eles, porque arranja trabalhos sazonais, com todos os prós e contras que isso acarreta mas nada é perfeito e o que quero levar no papo são recordações de gozo e não de obrigações ou dever cumprido, porque não tenho missão nenhuma nesta porra de sítio que é a terra, só quero é viver, não fazendo mal a nada, não me pondo a jeito para que me façam mal ou esgueirando-me como enguia do mal que me queiram fazer! 
Não sei se já escrevi em alguma altura, se sim volto a repetir, a minha filosofia de vida é, não sendo rica para fazer népia e ocupar-me às vezes a fazer de conta que vou salvar o mundo, coisa que nunca faria porque não tem salvação, apenas trabalho para pagar as coisas que gosto e uma delas é viajar para sítios remotos com muita natureza e pouca gente de preferência, para não encontrar meninas como esta do seguro e se as há aos molhos por esse mundo fora, que gostam de dizer que trabalham muito para seguir uma carreira mas depois vai-se a ver, são umas frustradas infelizes e mais grave ainda, são quase sempre gordas em dieta vitalícia, revolta e depressão constantes e nunca saberão o que andam a fazer até ao fim da puta da vida que arranjaram, merecem e pagam até ao último cêntimo e minuto!
Bem, voltando à vaca fria, que aqui são todas mas não precisavam de ser burras também, dando origem a um animal híbrido e estranho como a porra, a moçoila ao olhar para o nosso cadastro automóvel, sem acidentes nenhuns, que não somos como aqueles que conduzem bem, batem é muito, viu que andávamos a laurear a pevide demais para o seu gosto e da maioria dos canadianos, para quem o emigrante recente, porque eles são todos um bando ancestral de emigrantes colonizadores da pior raça, que parece foram todos à cona à prima, tem que ser um desgraçado tal, que se deixe humilhar por trabalhos de merda e salários a condizer!
Para esconder a frustração e inveja, a secretária pindérica dos seguros perguntou sobre as viagens e bem à canadiano pobre, que tem algum dinheiro mas vai sempre para Cancun ou Varadero por ser barato e fica fechado na segurança do resort, fazendo uma excursão de 10 horas de autocarro para ir ver umas pedras caídas, que os guias inventam que os antepassados não foram escravizados e construíram tudo aquilo de boa vontade aos fins-de-semana e feriados, naquela altura já havia respeito pelos direitos dos trabalhadores e nas horas vagas a 'obrigatoriedade de trabalho comunitário voluntário', os turistas norte americanos acreditam, os europeus como têm mais tempo registado de história, são mais difíceis de enganar com estas balelas que os latino-americanos contam e com as quais se devem rir para dentro, com aquela dentuça e cabeçorra em cima de um pescoço que não existe, em troca de umas boas gorjetas! 
A menina, ainda na senda de ser falsamente simpática de sorriso amarelo em riste, abriu a pestana, contraiu o olho do cu e arrebitou os mamilos, não sei, não estava lá, isto já sou eu a inventar, quando o moço disse a palavra mágica, Hawaii e mais ainda...been there 6 vezes.
Aviso já que quando fomos acampamos algumas vezes e muitas outras dormimos dentro do carro, se na Austrália o podes fazer sem ser importunado, no Hawaii não é permitido e em todos os estacionamentos não podes permanecer mais de 24 horas, é claro que à noite andávamos a fugir à policia e aos guardas dos parques, refundidos em estacionamentos de bairros residenciais, com os mangustos como única companhia a revolverem os caixotes do lixo ou a dormirmos à porta do McDonalds para poder usar o WC para o chichi e higiene matinais!Já agora vou fazer uma breve resenha gratuita do que é o Hawaii, não têm de quê!
É um local muito cobiçado não só como meca dos surfistas mas também por veraneantes emproados como golfistas e noivos japoneses, que fazem questão de ficar em tudo o que é hotel com a designação Luxury, Diamond ou Platinum, como os havaianos não são estúpidos e devem ter aprendido alguma coisa com a esperteza madeirense e açoriana que emigrou para lá aos magotes, dando também origem ao tradicional ukelele, uma espécie de cavaquinho português, estava eu a escrever, então os havaianos em qualquer buraco espetam com a classificação que dá brilho à coisa, quanto mais blink blink melhor mas aviso já que é tudo caríssimo, tanto a viagem seja de onde for para lá como a estadia. 

A praia que tanto se vê em filmes e anúncios, Waikiki em Honolulu, é uma autêntica merda, uma língua de areia que com a maré cheia quase desaparece, atravancada entre uma orla de hotéis a perder de vista, uma areia suja de tanto turista e bebedeira dos luaus, minha querida areia branca da costa alentejana, muito gajo de cabelo queimado e gajas de mama silicone tipo Bay Watch, com flores de plástico à volta do pescoço, muita puta de rua gira e lavadinha, muito sem-abrigo porque está sempre bom tempo nestas ilhas, as ondas são marrecas de velho para principiantes, estas tépidas águas têm aquela adrenalina, aquele picante de terem tubarões misturados lá pelo meio, mais uma vez, minha rica costa alentejana de água fria e revolta, mais linda como não há no mundo! 
Se querem ver alguma coisa de jeito, passem a cartada de Pearl Harbor, em tempos de paz e relax não se quer saber de guerras e visitem antes os vulcões adormecidos Mauna Kea e Mauna Loa, este último tem um observatório onde podem ver bem as estrelas e alguns planetas e ambos têm neve no cume e tantos japoneses, que só apetece atirá-los monte abaixo à biqueirada, não percam na Big Island também, o espectáculo da lava incandescente do vulcão Kilauea, cenário único e incomparável principalmente à noite e onde eu me aproximei tanto para ver o espectáculo que no chão escaldante derreti a sola das sandálias que levava!
Ora bem, a menina depois de engolir em seco, por tanto desejar ir ao Hawaii mas acabar sempre com os costados escaldados pelo sol da piscina cheia de mijo e cloro, que até pica nos olhos, num qualquer resort perdido no México, para ser ainda mais falsa na simpátia e a pensar que fazia boa figura, vomitou a seguinte observação: 

Deve ser cansativo conduzir até ao Hawaii?...

Introduzo aqui um som de bombo e pratos, cabum tchim, o moço arregala os olhos e aperta o olho do cu num esforço desumano para não se cagar a rir, depois de cancelar a coisa, sai porta fora, pega no carro, sem ideias de ir até ao Hawaii sem me levar, ai dele que faça isso, ainda por cima bem refastelado no Dodge que temos e entra em casa a lutar por respirar entre soluços e dores de barriga de tanto rir, na tentativa de me contar este elucidativo diálogo, não sobre as maravilhas de um bonito arquipélago perdido no meio do Pacífico, abençoado por Deus e estragado por tanto turista mas sobre a capacidade humorística daquela rapariga, desperdiçada atrás de um balcão de seguros, nem sei se merecia ter aquele emprego com tamanho empenho em espalhar parvoíce! Se calhar a senhorita só tinha feito a formação relativa a seguro automóvel, não a de barcos ou aviões, normalmente usados para chegar a ilhas!  
O que vale é que vivemos num país democrático e se a selecção natural permite a existência e integração de deficientes, tão ou mais válidos que os comuns e normalizados mortais, porque não a de ignorantes profundos e atrasados mentais também? Bem hajam por fazer rir! 

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