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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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15
Jul20

Dias de sonho

Rita Pirolita

Cresci em rua sem saída truncada por mata, eira de brincadeira rodeada de prédios que se aprumavam à volta, desplantados em terreno arenoso, poeirento na canícula e lamacento nas primeiras chuvadas, abriam-se pequenos rios que escoavam areia cuspida numa ribanceira, acolhida no vale que separava os pobres, dos filhos bastardos da pobreza! Aquele canyon era a divisão das tribos, de um lado o branco operário, do outro o cigano sem mandatário.
A nossa margem tinha uma oficina, homens de fato macaco cinza ou azul marinho, de cara enfarruscada e unhas de petróleo, eram os nossos guardiões e testemunhas da nossa bravura em aceitar desafios de tais selvagens do outro lado que faltavam tanto à escola que não mereciam misericórdia por tamanha preguiça.
Quando os meia leca que animavam a rua gritavam o desafio a pleno pulmão, urros de guerra não chegavam aos infernos mas atravessavam o rego gigante de terra e além do eco traziam resposta afirmativa, desafio aceite, hora marcada no pinhal e iamos todos para casa com resina nos casacos e musgo nos dentes, algumas baixas de cabeças amolgadas e joelhos rasgados!
Vivia em horários desleixados de brincadeira pela rua, o meu reino de liberdade, a casa em dias de frio, a prisão dos sonhos contidos em brincadeiras sem bonecas, cantarolice da moda, cromos da bola!
O Verão era de praia e corpo salgado o santo dia, nos dias mormos de estação indecisa, sem frio ou calor, sem chuva ou vento, só o dia e a noite, brincava-se perto das hortas a cortar minhocas em porções que se contorciam ainda com vida numa argila húmida, à espera que alguém fosse regar, apanhar ou ajeitar, dar de comer às galinhas e coelhos, para entrarmos num mundo de feijoeiros treposos por canas em tipi, nabiças peludas picantes, couves macias, feijão-verde veludo, feijoca pintalgada de rosa suave, tomates gretados de tão gordos de sumo, pimentos lustrosos, malaguetas dos retornados!
A noite caía, de jantar no papo rolava o corpo magro e moído para debaixo das mantas para sonhar até ao próximo dia de sonho! 

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