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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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10
Dez19

Contos da Estrelinha Serigaita - Quando eu vim para esse mundo...

Rita Pirolita
Às vezes ponho-me a pensar cá de uma maneira, quase a queimar fusível!
Antes que dê curto circuito ou se estrague vou pondo para aqui.
Cada vez vejo mais desgraça a rodear-me neste mundo, perante a qual cada vez mais me sinto impotente e da qual cada vez mais quero fugir. 
Se não vir ou souber, não me sinto participar, nem culpa nem responsabilidade, como aquela que em cima me puseram, sem eu saber ou me perguntarem se queria, quando vim para este mundo, mesmo sem me chamar Gabriela.
A mãe pariu-me, uma gata sapata, chupada como ela de tanto vómito na prenhice, passariam para mim os enjoos até hoje, também me quiseram passar missão de salvadora de união talhada com Lucifer como padrinho, discórdia o seu nome do meio, acabando em desgraça hedionda mas até lá, tinha a mãe doméstica, tempo de sobra para se entregar a especulações do mundo das trevas, que o pai era assalariado ocupado, em tempo de horas-extra bem pagas!
A mãe nunca reconhecendo que se embeiçou pelo amor errado que lhe batia e partia a casa, que a violava e enchia de nomes, que a deixava à mingua de comida por gastar em putedo e me punha na rua com ameaças de morte de faca apontada ao gasganete, meteu na cabeça que a minha vinda ao mundo iria derreter o coração de qualquer sociopata, fazê-lo redimir-se e unir o que sempre permaneceu apartado. 
Nasci assim, com a incumbência de iluminar o caminho do amor celestial, em adultos que deviam saber melhor que eu, aquilo que devem quebrar ou continuar.
Apesar da minha feiura e escanzelice, a esperança manteve-se, até começar a mostrar uma independência, desapego, frieza e convicção precoces, típicas de quem assim vive, no meio de adultos confusos e irresponsáveis! 
As ervas daninhas também dão flor.
Vendo a mãe que não me revelei santa, culpou-me da mistura de sangue que fez.
Levava-me ao engano, pelos cabelos e querendo eu ficar a brincar na rua, lá era arrastada para bruxas e bruxos de lés-a-lés do país, para que confirmassem que estaria possuída e assim me pudessem culpar da discórdia que afogava os meus dias.  
Habituei-me a certa altura a não ir ao médico, que não me iria de certeza diagnosticar depressão ou anormalidade, isso não serviria de desculpa para a culpa do inferno!
Andei de terriola em terra ou cidadela, nas férias, alguns dias eram reservados a espíritas nos arredores de Lisboa, que me consultavam sem eu abrir a boca, que me receitavam rezas e misturas de ervanária, sem contar com as vezes que a mãe usava apenas a minha foto, como presença suficiente para escarafunchar a minha alma, visto estar em dia de escola, pagaria metade ou dava o que pudesse, como muitos pediam para parecer que não pediam e assim passavam por benfeitores a prestar serviço gratuito.  
Vi gente de olho revirado, boca esgaçada, de ares arrotados em estridente exibição nas salas de espera, seriam algumas primas ou vizinhas contratadas que ganhariam uns tostões pelas convincentes representações de exorcismo, possuídos achaques e mau olhado, gente torta que se punha direita, defumadoiros, chás, velas e ervas! 
Quanto mais eu berrava que não acreditava, mais maldição e peçonha me atribuiam! 
As tias de Trás-os-Montes aprovavam tudo isto e sugeriam cada vez mais casas de consulta esotérica, locais de culto com filas enormes à porta do salvador, onde apareciam emigrantes das Franças, a contar histórias de maldição curada com burburinho de relambórios, santas e amuletos compradas por centenas de contos.
Vinham de todos os cantos para limpezas de casas, da alma, do corpo, dos nados mortos e dos que viriam planeados ou por azar, por desgostos aos amores, ao jogo, traições de família, males de inveja e cobiça, banhos de sal e água benzida...
Tirar encostos, obsessões, mau estar, ossos e menstruações fora do sítio, olhos vesgos, deformações, aberrações e somos todos tolos nestas peregrinações. 
Uns bruxos viviam em calabouços de paredes a chorar humidade, em lugarejos inóspitos, onde as pedras vomitam musgos de verde musgo-veludo-felpudo, outros viviam em mansões assombradas de vazias, com eco em salas gigantes, frias de tijoleira mortífera-escorregadia, ofertas inusitadas espalhadas pelo casarão, até cavalos e carros, além de toneladas de ouro e dinheiro. 
Assim se rendiam os ignorantes ao encanto do sábio, que só tem um olho mas sabe muito, encena passagens de espíritos pelo corpo, com arrepios de teatro, abano de cão com água, reviro de olhos, arroto de sapo, asneiras e impropérios em voz grossa cavernosa, baba e gestos destrambelhados de velha gazeada, despenteiam-se, suam, choram de sofrimento e maldição e riem-se de gozo mafarrico, da bondade do Santo a quem rezar. 
Alguns fazem caretas, outros olham fixamente para te ameaçarem de pestana arregalada e assim te renderes, perante a vergonha de não acreditares e a falta de coragem de denunciares. 
Ai se começo a gritar, agarrada ao meu sexo, mais louca que os tolos, sou expulsa e irrecuperável para todo o sempre, como maldição para o negócio!



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