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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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25
Jul20

Contos da Estrelinha Serigaita - Deficientes e outros normais diferentes

Rita Pirolita
Esta história tem origem na minha infância, aquela fase em já me sabia gente!
No meu tempo de escola primária as turmas eram igualmente enormes como hoje e mistas e por mistas não me refiro não só ao mix de sexos mas também ao mix de gente pequenina, normal fisicamente e gente com deficiência física e mental visível, porque burros e mais espertos sempre houve e que eu saiba só agora vão à psicóloga como se tivessem peçonha de rico, de boa qualidade, que não mata mas chateia e faz os pais andarem de um lado para o outro para se convencerem que estão a dar muita atenção e boa educação aos seus pimpolhos mais que tudo.
Naquela altura podiamos calhar numa turma com pelo menos um em cadeira de rodas, surdo, mudo, maneta, perneta, vesgo ou mesmo cego mas éramos todos saudáveis nas relações mesmo com os que eram um pouco diferentes e nós sabíamos, não virávamos a cara a nada, mas também não fazíamos de conta que eram como nós os ditos normais, considerávamos a deficiência na inocente visão pueril que dispensa peninhas e coitadinhismo, de gente que só não se mexia tão à vontade como nós mas corriam como podiam, caiam é mais.
Esta prática de melting pot não discriminava nem fazia separações, andavamos todos ao molho a aprender o mesmo e quase ao mesmo ritmo. 
Em vez de hiper-activos, putos índigo, autistas ou com déficit de atenção, existia pequenada deficiente, aéreos como eu, uns mais lerdos outros mais mexidos, mas no recreio era onde a diferença mais se esbatia, porque se alguém não tinha tanta destreza por limitações, continuávamos a brincar, a competir e a puxar por aqueles que estavam mais perros e todos respondiam com esforço para mostrar estarem à altura, serem iguais ou até melhores. 
Não pensem que estou a falar de cor, na minha turma tinha uma colega que nasceu com uma grave deficiência motora e dificuldades cognitivas, o seu aspecto era muito diferente do nosso, a começar pelo facto de não ter cabelo nenhum mas lembro-me de a vermos como nossa e diferente, como todos nós éramos uns dos outros. Movia-se com a ajuda de uma geringonça de ferros nas pernas que lhe permitiam estar de pé, mover-se e até correr de forma desajeitada mas não se ficava e apenas precisava de ajuda de algum de nós ou da professora para ir à casa-de-banho e empoleirar-se na sanita, porque era meio metro de gente sem perspectivas nenhumas de crescer mais. 
A professora teve o cuidado de a sentar na secretária lá à frente, para que lhe pudesse dar um pouco mais de atenção mas não muita não pensem, lembro-me de sempre se ter esforçado e passado de ano, mediante alguma benesse da professora na avaliação, que nós nem nos apercebiamos nem muito menos achávamos que estaria a ser beneficiada, porque éramos todos iguais com as diferenças necessárias para nos darmos bem ou no minuto a seguir andarmos todos à porrada. 
Todos levamos castigos e elogios e eu levei uma reguada apenas uma única vez, porque coisa que sempre tive de bom e me poupou de muita chatice foi aprender muito rápido com o que observo ou me acontece. 
Percebi que as totós que não se sabiam defender ao murro e ao pontapé como eu, me lixavam a vida na sala de aula ou no recreio fazendo queixinhas à professora por trás das minhas costas, assim que levei a primeira reprimenda com reguada mudei de estratégia e em vez de ser tão impulsiva, guardava a resposta para assim que pusessem o pé fora do recinto da escola já estarem a achar com chapadões e pontapés no rabo, não guardava nada mais além do tempo de aulas desse dia! 
Mas voltando ao motivo que me levou a escrever muito outra vez, não consigo evitar fazer testamentos e escrevo quase sempre de uma assentada!
Ora bem essa minha colega que era diferente mas não tanto assim...nunca mais a vi depois de acabar a primária, mudei de escola e de casa, a esta menina não era dada muita esperança de vida mas cheguei a saber que até há bem pouco tempo ainda era viva, contrariando todos os prognósticos negros dos médicos, que nem lhe davam tempo de chegar aos 8 anos mas lá chegou e isso eu confirmei na entrega dos diplomas da primária. 
Esta menina foi criada apenas pela mãe que era a senhora mais famosa da Margem Sul aos meus olhos, a senhora que vendeu waffles durante muitos anos à entrada do extinto Pão-de-Açucar, sim eu conhecia a Rainha das Waffles e o que eu adorava aquele sabor com bastante canela e açúcar on top, duas para mim se faz favor, quentinhas e saborosas!      

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