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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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29
Abr19

Casamento vegan

Rita Pirolita

Casou-se o par mais saudável que os amigos jamais tinham conhecido, vegans a toda a hora e a 100%, da cabeça aos pés passando pelo cão da casa, Buda de seu nome, exibia um pêlo brilhante e sedoso, resultado das almondegas de grão-de-bico e snacks de beterraba, o seu cocó era diferente de todos os outros patudos que lhe cheiravam o rabiosque com curiosidade e estranheza mas nunca com indiferença, parecia ele um ser superior na hierarquia dos canideos de postura de guru-yoguista indiano, caminhava como modelo na passerelle, uma pata à frente da outra, um cruzar de perna à lorde inglês, quando deitado de barriga no chão e um olhar de soslaio aos cães que passavam, sempre sem dar muita confiança, muito menos a humanos, poucos passavam no seu apertado crivo de critérios de cheiro e comportamento, batidas de coração ou depressão...

Acreditavam os donos que sendo nós aquilo que comemos a clarividência viria para todos os seres se a ausência de produtos animais não toldasse o discernimento, nem o mel resultante do aproveitamento escravo do esforço das abelhas, algum dia tinha entrado naquele lar arejado de feng-shui alinhado.

Alinharam também os chacras com as estrelas para marcarem o dia da cerimónia, foi difícil escolher data já que os deuses a Oriente bem como a Ocidente ou eram eternos ou não tinham assento de nascimento ou óbito, com tamanha confusão escolheram a data do desaparecimento da avó Bê, morte é transformação e reencarnação, que comece a festarola que os mortos virão também beber e comer! Para que serve viver sem comer ou beber, ora que a morte assim seja também, mesmo sem a vida por essência!

Começaram o envio de convites para quem gostavam de coração com a devida observação ressalvada, por um dia todos poderiam ser vegan.

Iniciaram as ausências de resposta com data a aproximar-se, os noivos sem saber o que fazer, esperaram em paz e paciência até ao dia da cerimónia no templo budista...

Após silêncio de 20 minutos, o cão Buda começou a agitar a cauda e a arfar de alegria, sentia nas patas a vibração de algo que lá vinha, começaram timidos a aparecer animais de todos os cantos do redondo templo, cabras tresloucadas, patos grasnadores e mudos, galinhas doidas e sem dentes, vacas, burritos lanudos e de repente um elefante de medidas portentosas como só uma baleia pode igualar, subiu ao altar, sentou-se e pronunciou o casal mais vegan do mundo, marido e mulher pelas leis do Yin-Yang, todos dançaram músicas de Bollywood com grinaldas na cabeça e pintas na testa, envoltos em nuvens de caril e açafrão, corcuma e tamarindo rolavam pelo chão, depois de cansado o corpo e alma cheia a avó Bê com a sua tromba deu por terminada a sessão de reencarnação de todos os convidados e mesmo ela estava com dores nos pés por causa do peso tonelar!

Todos recordaram aquele dia como de luz e paz tão intensas que até pareceu um sonho em mantra!

 

 

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