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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

02
Ago19

Buda e Shiva

Rita Pirolita

Dona Mariquinhas entregava-se à limpeza do seu pequeno altar, parecido a um presépio, um recanto da casa em que era sempre Natal, o menino anunciado da estrela que guiou os reis Magos estava sempre a chegar, ia ela e só ela cuidando do Deus maior espetado com pregos que devido à pequenez da imagem tinham passado a alfinetes com cabeça e tudo, presos em palitos que faziam a cruz, um Deus que pouco ou nada sobressaia no meio do paganismo de santos carecas ou com ovelhas, santas de ar descaido que nem cão repreendido, que choram, elevam as palmas da mão aos céus em modo bronzear a parte mais branca. Porque não uns santos de ar maroto ou posições sensuais, porquê sempre aquele joelho a tapar outro em modo estou à rasca para mijar ou esconde, esconde os aparatos sexuais, santas nunca mamalhudas ou rabudas, bem faziam os primórdios das grutas em que as deusas da fertilidade eram um deboche inocente e verídico, eram voluptuosas, de seios grandes empinados e grávidos ou descaidos de amamentar, ancas largas, rabos enormes e proeminentes, braços banhudos, coxas insufladas...bem, a Dona Mariquinhas não ia a esse ponto de inclusão tão liberal mas lá admitiu um Buda pequeno, oferecido pelo vizinho Amaral, após a morte de seu marido Ezequiel, disse o respeitoso Sr. Amaral, vire-o para a parede, de costas para si, talvez lhe devolva alegria, imaginou Dona Mariquinhas a felicidade a fazer ricochete na parede e a bater-lhe nas fuças, seria isso quando diziam que muitas coisas estavam ali mesmo debaixo do nosso nariz e nós não as viamos por falta de clarividência espiritual, fé, crédito ou fosse lá o que fosse isso da religião e acreditar em dias melhorzitos?...
Pareceu sim que aquele Buda vinha com o desejo do Sr. Amaral ser o segundo marido tão bom ou melhor que o primeiro, e arrematava dizendo que era tudo no maior respeito pelo falecido. Dona Mariquinhas fazia um ar inocente de miúda nova nas conversas, nem de beata, nem de sabidona disfarçada mas que o Sr. Amaral percebeu que ela percebeu que a conversa era de engate à moda antiga, ai isso percebeu, o velho repenicado a fazer-se à viúva ainda fresca e coquete!...
A esta feira de desfiles foleiros naquele altar, que era assim uma espécie de tunning de altares domésticos, juntou-se uma Deusa Shiva, cheia de braços, última oferta do neto vegetariano, dizia a Dona Mariquinhas que aqueles braços todos por detrás da Deusa que tinha uma cara hermafrodita, se pareciam a cobras e representavam pecados do lado direito e virtudes do lado do coração e quando se cruzavam sobre o peito os braços do bem amenizavam os do mal e assim que se voltassem a apartar as indecisões voltavam a atacar as almas mais desprotegidas, a Shiva já não precisava de estar voltada para a parede como o Buda, era uma deusa mais hippie e peace and love, podia perfeitamente estar naquela posição de ioga, a olhar para nós com aquelas maminhas de indiana e cara de homem adolescente, sobrancelha grossa mas olhos contornados a preto!
Dona Mariquinhas também pensava, aquilo lá nas indias é uma pobreza mais pobre que a própria pobreza, que ninguém deve andar atento a pinturas de olhos ou batom ou se é homem ou mulher, convém é que seja trabalhador para sustentar a família, daí talvez aquela deusa fosse o desejo de muitos, ter braços para trabalhar tanto mas tanto que se acumularia riqueza muito antes de morrer, ainda bem a tempo de gozar sem doença de maior!
Dona Mariquinhas tratava o seu altar com asseio como um imperiozinho açoriano, organizado e limpo por dentro e aparatoso e confuso à distância, com umas cores berrantes que mais pareciam pintadas de fresco de hora a hora como nos templos das tais indias, pensava ela, porque com tanta gente a reproduzir-se aquilo não podia haver trabalho para todos, então os mais pobres ocupavam-se do embelezamento da fé na senda de uma malga de arroz!
Amiúde, a viúva não frequentadora de igreja em dia de missa, ia pondo em causa a Bíblia, melhor dizendo, as traduções bíblicas, os apóstolos escreveram as pregações, ditos e ditames de Jesus que não escreveu nem um ponto num i, como o seu preguiçoso antecessor Platão, tinha nos seus apóstolos, fieis seguidores e aprendizes como Aristóteles, cada um deve ter feito a sua interpretação e depois de escrito e de ser o calhamaço mais traduzido em todo o mundo, muita coisa se deve ter perdido, fora as mentes distorcidas pela ganância e domínio que em vez de verem iluminação nas sagradas escrituras, condenaram tudo ao pecado retrógrada, definhento e obscuro como Peste Negra!
Foram surgindo na sala do altarzinho piroso umas tertúlias a dois, apenas ela e o insistente Sr. Amaral que a foi conquistando com garrafinhas de vinhos finos licorosos, da sua colecção de miniaturas, lá achou ela que lhe deveria dar oportunidade antes que a colecção se fosse numa só noite em uns tantos golos ou que chegasse ao saloio licor de Merda, já que cada sumitica garrafinha era limpa num só travo, um engolir de cuspo!
O Sr. Amaral falava de suas maleitas sempre a minimizar os efeitos e defeitos do corpo sénior, para se mostrar ainda na flor da idade e com vigor de jovem e ela lá ia falando das suas, uma noite até lhe mostrou as imagens 3D de uma endoscopia que tinha ido fazer, estava tudo bem e fez questão de realçar as bonitas cores das suas entranhas, um rosa suave que nem um porco doméstico, falavam também da felicidade fugidia como a vida, ambos viúvos queriam voltar a amar para não se sentirem tão sós, não sabiam estes dois velhos triviais que mesmo amando com companhia nos podiamos sentir profundamente sós, se não amássemos a solidão de raiz, uns Fernandos Pessoas à deriva no meio da multidão, tivessem eles amor próprio e soubessem que a felicidade é ela própria uma das melhores companhias além da inevitável solidão do nascimento, vivência e morte, apenas uma forma de olhar o mundo tal como uma religião mas daquelas como o budismo praticado à séria ou a da Bíblia bem traduzida, sem vírgulas a mais ou a menos, sem pontuação fora do sítio ou palavras embelezadas, amenizadas, aguçadas ou distorcidas, se calhar os mandamentos nunca foram imposições e sim hinos à liberdade e arbitrariedade de almas bem formadas que sabiam de antemão que matar ou cobiçar não fazia bem aos receptores nem aos originários do sentimento ou acto, em vez de não matarás, seria mais um não deves matar, uma premissa de boa conduta, deves pensar na irresponsabilidade dessa energia de reacção que vai activar e atrair consequências menos boas! A religião devia ser assim como um algodão que às vezes ficaria levemente sujo, nunca conspurcado, peganhento ou pesado de pó, deviamos ser um todo de algodão semi-sujo porque também não somos tão perfeitos ao ponto de desaparecermos, sermos apenas luz e Universo, seriamos no máximo semi-deuses a favor do teste do algodão, que tédio seriamos sem lutas, indagações ou tentações só das boas tipo luxúria mas as religiões não vieram como algodão de demonstração da brancura, nem o deus Ariel chegaria a tal alvor, vieram como pensos rápidos para aguentar a ferida, oferecer em troca de sacrifícios de uma vida inteira, alívio de apenas horas, dias ou até à próxima Páscoa e a salvação apenas para lá da vida não vivida, no fundo uma vida morta antes da morte, em vez de acreditarmos no melhor potencial, preferimos sempre invocar a deuses que nos salvassem das cobras do espírito com mezinhas, bulas pagas por quem tinha soldo, rezas e rituais, pedir desculpa em vez de evitar!
Foi assim que um dia o Sr. Amaral acudiu à Dona Mariquinhas que aflita se tinha engasgado tanto que nem conseguia dizer o que lhe descia no cano, ambulância e bombeiros acorreram ao r/c direito para salvar a senhora de olho esbugalhado, faltava-lhe o ar a que nem peixe falta água, os peixes morrem com ar a mais e nós com ar a menos, sem ar ou com água a mais!
Hospital e cemitério, Dona Mariquinhas finou-se horas depois do salvamento, manobras de Heimelish e reanimação não foram poupadas mas o ar que lhe faltou e não voltou ao cérebro, matou os órgãos de desfalecimento.
Mostrou-se o Sr. Amaral interessado nos resultados da autópsia, que com delicadeza pediu ao neto vegetariano lhe fossem comunicados assim que possível, ficou assente que seria informado!
Chegaram passadas duas semanas, o neto da Shiva passou o relatório ao Sr. Amaral, com mão levemente trémula e olhos de compaixão, Dona Mariquinhas tinha morrido por engasgamento e asfixia por ter engolido um Buda de pequenas dimensões, que ninguém sabia porque razão se tinha posto nas entranhas rosadas da viúva, que até era um pouco alegre, em segundo parágrafo, uma Shiva estaria alojada no recto sem ter partido um único braço, não sendo no entanto a causa do óbito.
Os deuses sejam louvados mesmo que invocados aos buracos mais insondáveis e negros!

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