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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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20
Fev20

Balde do lixo

Rita Pirolita
Vou falar de um balde do lixo doméstico que caiu dentro de um contentor do lixo por minha culpa mas tudo acabou bem, apesar do mau cheiro!
Desde que me lembro de ter desenvolvido as minhas capacidades motoras em pleno que usava mais para correr, saltar e brincar, lá em casa já me incutiam a responsabilidade de tarefas, como limpar o pó todos os dias, sim, todos os santos dias, menos ao domingo, o que não custava muito num andar minúsculo de 2 assoalhadas.
Um quarto para os progenitores e uma sala que acumulava as funções de estar, jantar e à noite virava o meu quarto, com um sofá-cama forrado a bombazina verde-musgo, muito na moda, que abriu e fechou durante muitos anos, as vezes que foi preciso, no sono e na doença, cumprindo a sua função perfeitamente até ao fim do seu uso, que se deu com a mudança de casa e um quarto só para mim, mas só lá para a adolescência! 
Numa casa onde imperava a discórdia, destruição, gritos e violência ninguém se preocupava com educação ou compreensão, impunham-se regras para diluir a falta de respeito e iludir uma normalidade que nunca existiu. 
A obrigação de ajudar era uma forma de marcar autoridade por imposição maternal, quase como uma vingança e transferência de raiva, vinda de alguém que era tratada como gata borralheira e se queria sentir como a irrepreensível fada do lar, com poder no seu pequeno reino doméstico, já que a sua existência era todos os dias assombrada por discussões humilhantes e uma incompatibilidade visceral mantida à força, um amor doentio, obsessivo e destruidor, com resultados nefastos no futuro...para mim também! 
Os meus dias decorriam embuídos de uma inocência que de alguma forma me protegia do caos à minha volta e cujas memórias apenas mais tarde vieram a ser processadas, por uma cabeça que foi obrigada prematuramente a deixar de ser pueril. 
Nunca éramos desgraçados de quem alguém tivesse pena, não tínhamos onde nos queixar ou recolher, vínhamos ao mundo numa família que nos dava comida e nos punha na escola e só tínhamos que cumprir com o mínimo de obrigações, não fazer birras e se fosse caso disso levávamos dois tabefes que nos acertavam o passo, até à próxima choradeira típica de miúdos, por tudo ou por nada. 
A vizinha do prédio da frente batia na filha com colher de pau todos os dias, partia colheres a toda a hora no lombo da miúda e fartava-se de gritar com ela, eu como não levava tanto, encolhia-me como se as colheradas me estivessem a cair em cima do pêlo, como a dividir as dores em solidariedade para com a minha colega de escola que não esperava ver inteira no dia a seguir, mas lá aparecia ela sem ponta de queixa ou perda de peças, embora tivesse de certeza aquele rabo todo negro!  
Além da limpeza do pó e dos vidros, com vinagre e jornal amachucado que me deixava as mãos pretas mas os vidros imaculados também tinha a tarefa de ir despejar o balde do lixo, o que até gostava, visto que qualquer pretexto para andar com o cu na rua era bem vindo. 
Certa vez ao fim de um dia longo de verão lá fui despejar o lixo no contentor que ficava nem a 100 metros do meu prédio, era uma hora calma de fim de jantar, não se via vivalma e nem os pássaros se ouviam, derretidos na molenga dos ramos. 
Ao virar o balde para despejar aliviei demais as mãos e aquela porra escapuliu-se e foi parar ao fundo do contentor que ainda por cima estava vazio. 
Olhei incrédula para dentro daquele buraco mal cheiroso com paredes incrustadas de camadas de gordura e humidade fétida e não me dando por vencida nem ir a correr chamar a mãezinha que não era nada o meu género, investi em me desenrascar sozinha. 
Tentei esticar um braço ao máximo, depois os dois, depois aos saltinhos e depois de tanta tentativa infrutífera e a enxutar moscas com chapadas de raiva no ar, bichos da merda, que tinham tirado o fim do dia para me chatear e não tinham qualquer sentido de oportunidade ou condescendência com a minha difícil tarefa de salvar o balde do lixo de ficar no lixo, decidi empoleirar-me nas pegas laterais, qual mangusto chafurdeiro e com cuidado para não ir parar lá dentro e fazer companhia ao balde, empenhei-me no equilíbrio e de uma penada lá consegui alcançar o balde. 
Cheguei a casa como se nada fosse, calada que nem um rato, mas com os sovacos doridos e a tresandar a lixo. 
Não tive a pior infância do mundo, nem por lá perto, mas podia ter seguido caminhos piores e mesmo assim ainda bati em algumas portas erradas que me prontifiquei a fechar assim que desse com o erro e a retomar caminho que me parecia menos mau. 
Não tive muito tempo para brincar, a responsabilidade chamou-me logo a alinhar na vida muito cedo e agora olhando para trás, a minha sorte seria outra se me tivessem recolhido sem pena, qual cão de rua abandonado que amassem porque tinham para dar, sem se importarem com o meu curto mas já dolorido passado, traumas e medos e eu iria agradecer que para meu bem me dessem educação com um propósito e não o vazio imposto do "vais fazer porque sim, porque eu digo, posso e mando em ti!"

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