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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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22
Jul20

Aves raras que voam baixinho

Rita Pirolita
Não sei quantos de vocês conhecem nem que seja de passagem, superficialmente, os bastidores da televisão?

Entrei neste pouco recomendável meio por necessidade e em part-time, pagavam bem a figuração em novelas, filmes e anúncios e até tive algumas experiências engraçadas, não conheci foi muita gente que se aproveitasse, nem para fazerem de esfregona com um cabo de vassoura enfiado no cu!

Conheci as manhas, taras e manias de actores famosinhos, secundários aspirantes a estrelas decadentes, velhos jarretas com ar e postura de galã, velhas de mamas empinadas e cintas aperreadas, armadas em bombásticas musas, quais Gina Lolobrigida...enfim, um desfile de figuraças na senda do glamour mesmo que entradotes.

O mundo da TV também é espectáculo, há sempre lugar para o sonho mais parvo e vazio e as ilusões mais descabidas.

Comecei no entanto este texto com a ideia não de falar de tanta gente que como eu por lá andava, a partilhar boleias, a ficar pela noite dentro em repetições de filmagens, a vestir e a despir, a comer em caterings de merda tarde e a más horas, a ser maltratado como gado, "agora fiquem todos à chuva, agora assem todos ao sol, agora chorem, fiquem duas horas de pé, de cu para o ar, agora batam palminhas, quem mais obedecer damos mais um chupa-chupa" e era isto quase todas as vezes que se fazia figuração! 

Como lá atrás ia quase explicando, não é deste gado que quero falar, quero sim falar de um tipo de fauna que cirandava que nem abelhas em obediência à volta da gorda rainha, não se sabendo quem governava numa hierarquia confusa, onde todos se acotovelavam e traiam para serem notados na escrava presença, disponibilidade servil e nunca na eficiência, isso talvez interesse mais na sétima arte, esta é uma arte que já deixou de ser digna, desde que as vozes da rádio entraram em declínio, uma feira de pelintras armados aos cucus, actores velhos, linhagem sobrevivente do tempo do Leão da Estrela, que se mantém à tona em novelas, num registo ainda teatral, de histórias repetitivas e desgraçadas, os ricos e os pobres em constante confronto, as traições e amores impossíveis e casamentos forçados, concursos de Bota Botilde, reality shows...

Os que se seguiram à velha guarda do tempo em que as coisas eram difíceis e tantas vezes censuradas, foram os filhos, netos, bisnetos, sobrinhos, primos...dos artistas que vingaram no passado. Os apelidos continuam a ser os mesmos, pouco precisam de fazer para cair nas graças do público, vida facilitada por cunha incluída no nascimento, há pessoas com sorte que vivem bem à sombra do nome, por mim não gostaria de pertencer a uma familia de famosos, tinha que andar sempre em festas e nas revistas cor-de-rosa, neste meio quem não aparece esquece, seria uma canseira para mim, preferia mil vezes ter nascido numa familia rica em que as últimas gerações já não trabalhassem pelo menos há um século! Gostos de princesa pobre, estes que eu tenho.

Com esta converseta toda ainda não falei dos principais visados deste texto mas agora vai!

Nunca me senti identificada com esta gente que me arrepiava, uma certa repulsa que sentia na sua falsa forma de trabalhar e conviver com os colegas, estou a falar de toda a gente que por mais má que seja é indispensavel para a realização de um programa de TV ou cinema, sim estou a falar desde o carpinteiro ou pintor dos cenários e electricistas, que normalmente são os mais acessíveis e simpáticos, aos aderecistas, maquilhadores e cabeleireiros, na sua maioria gays e à procura de um lugar ao sol como todos na sua exagerada exuberância do "estou-me a cagar para o que os outros pensam, já todos sabem que gosto de levar no cu", passando pelos apontadores ao director de filmagens, fotógrafos, de realçar os directores de casting que com seu olhar altivo de desprezo, como se tivessem engolido este mundo e a galáxia toda, abusavam da autoridade e gozavam com gente que sabiam quererem ser famosos a qualquer preço...

Toda esta gentinha assumia ares de suprema importância no decurso da humanidade! Todos trabalhavam quando havia filmagens ou eram chamados e isso dependia de quantos cus lambiam ou enrabavam ou com quantos se metiam na cama, além de tristemente ganharem muito mas pagarem elevadas quantias ao estado por serem trabalhadores precários a recibo verde, tanto que se fossem de férias muito tempo quando voltassem já ninguém os chamava, a não ser que se fosse muito bom no ofício mas a esses entupiam de trabalho de tal forma que nem conseguiam respirar, era noites, fins-de-semana e feriados, sempre a trabuquir. 

Não diria que era tudo um bando de incompetentes mas armavavam-se ao pingarelho mais que o que deviam! 

Eles andavam todos com o mesmo tipo de calças caras, elas com o mesmo tipo de corte e cor de cabelo, depois parece que a Merrell fez uns ténis de propósito para esta gente ou então a fábrica fechou e vendeu o último modelo ao desbarato, andavam todos com o estilo de "sou muita maluco, fumo charros mas não sou drogado". 

Viviam todos na periferia de Lisboa, nos sítios mais manhosos, aqueles que apareciam nas notícias sempre pelas piores razões e onde por acaso se situam a maior parte dos grandes estúdios de televisão mas andavam com toda a cagança a tentar arrendar uma casa no Bairro Alto.

As tricas eram mais que muitas tipicas de 7 cães a um osso. Dirigir-lhes a palavra tinha que ser quase anunciado por pombo correio! 

Confesso que nunca gostei nem tive jeito para lidar com gentalha de humor saltintante, carrancudos e mal dispostos de sorriso esquizofrénico e atitudes de drogado numa tripe, como as assistentes de bordo, cabras que baste e sempre de feitio às avessas por causa do jet-leg, mal dormidas e nem sempre fodidas a horas decentes! 

À parte tudo isto tive a experiência extra-terrestre de conhecer uma Teresa Guilherme, prognata, cabeçuda que nem um burro, tudo isto em meio metro de pessoa hiperactiva, um Nicolau Brayner que não podia ver um rabo de saias, modelos armadas em actrizes, era um mimo vê-las cair de vez em quando e não saberem falar na maioria das vezes, poupem-me àquela imagem e comentário, "para a beleza que tem até é espertinha!"

Não sei que mais vos diga sobre este mundo, alguma coisa me escapou mas é certo que estou contente por já não precisar de trabalhar neste ambiente bipolar, além de não conseguir fazer o teatro do sorriso amarelo todos os dias, ser ave rara e voar baixinho não é para mim, nunca daria para famosa, já para rica...

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