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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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06
Ago19

Agostinho, o construtor

Rita Pirolita

Agostinho, menino beto da terra, filho de família de médicos, descambou de dentista ou advogado para construtor de Mercedes e putas, das mais carotas claro e por isso mais lavadinhas pensava ele, melhor serviço, maior satisfação e asseio para não levar para casa carrapatos, piolhos ou chatos!
Casou bem, teve um filho que previa levar às putas mas mal seria que aos 10 anos já o fedelho tinha pedido os Escuteiros, a devota mãe de missais e limpezas de altar achou genial a escolha do seu querubim.
Viu-se Agostinho envolvido num género de Opus Dei doméstico e lá passou a ter um certo ar de pato bravo da Maçonaria, não que a gentalha pouco endinheirada soubesse desses nomes ou grupos secretos, eram sempre uns senhores que enriqueciam não se sabia bem como, por esforço ou sabedoria não era, talvez por herança ou mais certo por golpes e falcatruas, muitas, constantes, amiúde ou uma certeira!
Andava Agostinho em vida de trabalho, subempreiteiros, máquinas alugadas, dragagens de rio, moradias pirosas à novo-rico ou pobre coberto de ouro, putaria, mulherzinha de sermões fatimistas, temerosa a castigos divinos, maldições e exorcimos, casta nas roupas, parecia ela nora de um médico, nunca esposa de um construtor, um filho saído entre a rudeza do pai e a sonssice da mãe com que não tinha que se preocupar, bons resultados na escola, a caminho de estudos nunca longe da biologia, floresta ou animais.
Uma tarde foi chamado Agostinho pelo engenheiro da obra, uma retroescavadora tinha empancado num muro rijo como cornos, um muro com 3 metros de grossura dizia o maquinista em exagero.
- Ó homem isso não existe, um muro dessa largura é uma auto-estrada! Dizia Agostinho em desprezo ao subalterno que só era pago para manobrar não para invenções ou palpites malucos!
Vamos lá então ver esse muro-pedregulho que já deu prejuízo, garfos da máquina partidos e obra parada por um par de horas!
- Eng° Agostinho...
- Ó homem, o engenheiro é você e da obra, eu pago-lhe para isto não empancar! Então diga-me lá que espécie de muro é este, dos rijos, que lascam ou porosos?
- Sr. Agostinho a questão é outra...
- Desemburre homem, não lhe pago para discursos engasgados muito menos para falar mas vá lá diga-me...
- Bem, eu mando abrir muitas fundações mas não sou arqueólogo mas isto Sr. Agostinho, sinceramente parece-me uma coisa de séculos senão de milhares de anos e já muitos mirones passaram aqui e não tarda muito estão aí os da Natureza e Ambiente a embargar seja o que fôr...
- Homem vire essa boca para lá...
- Vire o Sr. Agostinho a cabeça e veja quem vem lá...
Chegavam os capangas da Natureza, melhor dizendo o seu filho e um colega, bem apessoados, demais até!
Pensava o Sr. Agostinho que estava tudo resolvido, nas mãos da família tudo ficaria por ali e a obra continuava, se calhar até venderia melhor as moradias inventando que naqueles terrenos diziam-se enterradas preciosidades ancestrais, uma metrópole evoluida que ali tinha existido, portanto estariam a comprar valor horizontal e também histórico, antiquíssimo, sim que os antigos tinham olho para os sítios e como não havia tanta especulação e gente em outros passados longínquos, podiam apoderar-se das melhores vistas e dos terrenos mais planos ou férteis!
Pôs-se o filho a mirar o muro e o colega a tirar fotos, dias depois veio o comunicado que mediante avaliação em gabinete da especialidade, tinha o muro que ser contornado, não podendo ser destruído ou tapado, tinham que aguardar um período de nojo para averiguar das dimensões da ruína e artefactos que poderiam por ali despontar e contar mais do que ali se tinha passado, se calhar uma donzela encalhada entre muros de mosteiro ou uma comunidade de agricultores votados ao inóspito!
As negociações foram decorrendo entre pai e filho na maior das cordialidades e quase sem despontar relacção de sangue!
Foi ficando o campo de manobra apertado, o Sr. Agostinho já bufava a tempo inteiro, parecia uma chaleira velha, uma panela Silampos, andava inaturável, a esposa fugia do maçador que se tornara ao refugiar-se na preparação de quermesses, festinhas dos Escuteiros ou decoração da igreja em casamentos e baptizados, até se ofereceu como carpideira mas pouco chorosa, para apoiar familiares de defuntos que conhecia da vila em momento solene de velação.
Decorreram 3 semanas e meia e o Sr. Agostinho acedeu a incorporar o muro que se descobriu ser único e monumento isolado de uma antiga fábrica de tijolo, tudo a ver com a sua arte, fez-se uma vedaçaozinha com uma pequena placa a mencionar o valor da obra e do benfeitor que a protegeu ou melhor dizendo, não destruiu ou tapou, 'Descobriu-se este vestígio no decorrer de fundações para uma moradia, da qual o próprio construtor abdicou fazer para que gerações futuras pudessem testemunhar a arte ancestral de bem construir em tijolo-burro' Agostinho Albuquerque.
Apesar de rasgados elogios a pai e filho, pela obra-monumento levada a bom porto, havia também um acordo subterrâneo entre ambos, o Sr. Agostinho não assumia o facto do filho ser gay e o filho não se exibia nas ruas como namorado do colega de trabalho ou de qualquer outro nas redondezas! Restava saber de que larguras e comprimentos eram tais arredores!

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