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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

03
Nov22

O menino nasceu

Rita Pirolita

O menino nasceu, desejado mas inesperado, a mãe escondia-o talvez do frio que ai vinha, quando o começou a mostrar o olhar era distante, o da mãe preocupado, o do pai ainda desinteressado, separa-se o casal mas não vivem afastados mais que uma dezena de quilómetros, participam muito na educação, não comunicam entre si e deixam os avós tomar conta de tudo. O primeiro neto será o mais inteligente, o mais bonito e o mais mimado, é muito esquisito, o pouco que come deixam-no fazer na cama em frente à televisão, tem todos os presentes que pede em épocas festivas e fora delas, bate na mãe, grita com ruídos e tapa os ouvidos, vê televisão com o nariz no ecrã e olhos virados para o tecto a desfalecer de alheamento. Dizer aos pais que o seu menino não é apenas mimado por avós sem conhecimento que fazem o melhor que podem, o seu menino é ligeiramente diferente, viram costas, não querem saber!
Entrada no colégio que os avós pagam, começa o calvário, isolamento, agressividade, pouca interacção com outras crianças, tentativa de aviso aos pais, passa para a escola pública, aviso declarado aos pais de autismo, proposta de ensino especial, não querem saber, volta para o colégio que promete ampará-lo na redoma até quando puderem pagar.
Avós idosos esgotados, pais esgotados já em terapia, menino recusa-se agora a ir à escola, só quer ficar em casa e sempre perto da mãe, já ninguém suporta a situação, querem agora inscrevê-lo numa instituição pública que aceita estes casos até aos 18 anos mas sem processo de sinalização não entra.
Quando estes pais começarem a sentir a culpa de nada terem feito porque entraram em negação condicionando para sempre e sem retorno a vida do filho, a vida vai desabar, confiaram que alguém na escola lhes resolvesse o problema, confiaram que o tempo cura e desvanece as piores suspeitas, porque queremos sempre que os nossos não podendo ser os melhores, sejam ao menos normais, com pouco investimento e amparo que baste e o crescimento fará o seu trabalho, pois em alguns casos não faz, é preciso mais que acreditar no curso normal da natureza e desenvolvimento, é preciso inclusão das excepções mas para isso é necessário reconhecê-las, só aceitando o problema se pode resolvê-lo, não foi o caso e a altura certa de agir foi desperdiçada. Pais que pela ordem natural morrem antes dos filhos vão cair na angústia de os deixarem no mundo sem ninguém que os ampare!

26
Out22

Sobre a minha morte...

Rita Pirolita

Vou aproveitar para escrever sobre a minha morte enquanto estou viva pois claro...
Se vos disser que penso nela com os pés assentes na terra e de forma fria e programada...contenham o sorriso ao canto da vossa boca, poupem-se para outras gargalhadas com vinho e amigos...
Por falar em amigos...não tenho, família idem, os primeiros por decisão minha a segunda por impossibilidade, adversidade, o que fôr, não tenho e pronto, vou então envelhecer sozinha e a querer que cada vez me chateiem menos, já acontece, terá portanto tendência a refinar, já comprei o vestido para o meu funeral, comprei inicialmente porque gostei dele, depois porque não tinha nada para ir a uma festa mais pomposa que estou sempre à espera que não se lembrem de me convidar nem que seja por arrasto para acompanhar o moço, depois achei finalmente que me ficaria bem na morte um branco pérola, tal como vesti a minha mãe, quero ser cremada como a ela decidi fazer e se possível que espalhem as minhas cinzas no mar como fiz às dela, não idealizo suicidar-me como ela fez numa desistência da vida e extrema coragem para a morte, gostaria de durar antes do sofrimento chegar, não ficar alheada de mim e ter assim tempo de pagar o serviço fúnebre a ser cumprido com os simples pedidos acima já indicados porque o vestido esse já está escolhido, é mantê-lo agora com pouco uso, livre de nódoas e de amarelecer ao contrário da minha alma e corpo que espero morram de cansaço em aceitação e paz!
E é isto, não imagino nem idealizo nada mais para a minha morte senão que seja tranquila com tempo para me despedir, nem devagar nem depressa demais apenas ao ritmo que ela me reservar, sem ser má ou vingativa porque eu nunca lhe fiz mal...

25
Out22

Adoptou

Rita Pirolita

Depois de dois fetos destinados ao aborto a vontade de gerar cessou, veio em cima da dor o desejo de adoptar, sem querer saber se de um ou outro sexo, também não queriam um ser qualquer, daqueles com traumas, corpo botado, com vícios próprios ou herdados, que viesse de mãe necessitada, não desgraçada, limpa e de saúde, motivada o suficiente pela mediana pobreza para receber algo em troca de dar sangue e plasma, olhos, bochechas e mãozinhas de suas entranhas.

Os fiscais do processo estavam lá para garantir que não transparecesse que a barriga seria alugada, na contagem da história pelos avós emprestados senti a purpurina atirada aos meus olhos, a lágrima surgiu ali à beirinha mas não caiu, recuou.
Veio uma menina de raça ariana, perfeitinha, cheia de graça mas não gratuita, de mãe inspeccionada, controlada, analisada desde a maleita à genética. Foi aos braços dos pais fingidos com dois dias, sem chupar leite da teta, não fosse a original mãe apegar-se à menina de olhos de mar com nevoeiro.

Criou-se o ser com tetina de silicone e leite de lata, desviada da mãe também não criou laços com os adoptantes, tão amada iria ser no meio da riqueza que traria a felicidade que a pobreza da mãe não conseguiria comprar nunca, pelo menos assim se desculpavam os pais de papel por terem arrancado um ser de outro com poucas horas de mundo, na ânsia de ter objecto onde despejar a forte necessidade de amar para se sentirem com sinónimo!
A menina cresceu sorridente, inteligente, fria e independente, foi enterrando os pais na casa do lago, sempre em noites de pouca luz, geriu a vida sem amor num autismo atroz, nunca teria filhos, teve bonecas que desmembrava escondendo pernas num canto da casa, braços no outro e cabeças atiradas ao fogo para garantir que partes nenhumas se encontrassem até à eternidade!

24
Out22

Gente boazinha

Rita Pirolita

Estou farta de pessoas que praticam o bem sem saber a quem, com um propósito, de propósito, com segundas intenções, não impõem limites e queixam-se muito do cansaço de ajudar...estou farta de pessoas boazinhas, quero boa gente!

15
Out22

O bombo

Rita Pirolita

Detesto procissões mas não é que os bombos da banda dos bombeiros me estremecem as entranhas e me fazem subir as lágrimas a ponto de ter que dar nó na garganta para impedir que saltem!
Que vergonha seria chorar à frente de alguém, nem conhecidos nem desconhecidos, NINGUÉM!

02
Out22

Catarse

Rita Pirolita

Já ninguém usa roupa para se proteger? Pavoneiam-se apenas e só pela necessidade de afirmação, imposição e exposição da sua intimidade?
Estarão tão confusos e desprovidos de densidade interior que necessitem da catarse exterior dos seus anseios e fantasias?

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