Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

Contos e Descontos

26
Out22

Sobre a minha morte...

Rita Pirolita

Vou aproveitar para escrever sobre a minha morte enquanto estou viva pois claro...
Se vos disser que penso nela com os pés assentes na terra e de forma fria e programada...contenham o sorriso ao canto da vossa boca, poupem-se para outras gargalhadas com vinho e amigos...
Por falar em amigos...não tenho, família idem, os primeiros por decisão minha a segunda por impossibilidade, adversidade, o que fôr, não tenho e pronto, vou então envelhecer sozinha e a querer que cada vez me chateiem menos, já acontece, terá portanto tendência a refinar, já comprei o vestido para o meu funeral, comprei inicialmente porque gostei dele, depois porque não tinha nada para ir a uma festa mais pomposa que estou sempre à espera que não se lembrem de me convidar nem que seja por arrasto para acompanhar o moço, depois achei finalmente que me ficaria bem na morte um branco pérola, tal como vesti a minha mãe, quero ser cremada como a ela decidi fazer e se possível que espalhem as minhas cinzas no mar como fiz às dela, não idealizo suicidar-me como ela fez numa desistência da vida e extrema coragem para a morte, gostaria de durar antes do sofrimento chegar, não ficar alheada de mim e ter assim tempo de pagar o serviço fúnebre a ser cumprido com os simples pedidos acima já indicados porque o vestido esse já está escolhido, é mantê-lo agora com pouco uso, livre de nódoas e de amarelecer ao contrário da minha alma e corpo que espero morram de cansaço em aceitação e paz!
E é isto, não imagino nem idealizo nada mais para a minha morte senão que seja tranquila com tempo para me despedir, nem devagar nem depressa demais apenas ao ritmo que ela me reservar, sem ser má ou vingativa porque eu nunca lhe fiz mal...

25
Out22

Adoptou

Rita Pirolita

Depois de dois fetos destinados ao aborto a vontade de gerar cessou, veio em cima da dor o desejo de adoptar, sem querer saber se de um ou outro sexo, também não queriam um ser qualquer, daqueles com traumas, corpo botado, com vícios próprios ou herdados, que viesse de mãe necessitada, não desgraçada, limpa e de saúde, motivada o suficiente pela mediana pobreza para receber algo em troca de dar sangue e plasma, olhos, bochechas e mãozinhas de suas entranhas.

Os fiscais do processo estavam lá para garantir que não transparecesse que a barriga seria alugada, na contagem da história pelos avós emprestados senti a purpurina atirada aos meus olhos, a lágrima surgiu ali à beirinha mas não caiu, recuou.
Veio uma menina de raça ariana, perfeitinha, cheia de graça mas não gratuita, de mãe inspeccionada, controlada, analisada desde a maleita à genética. Foi aos braços dos pais fingidos com dois dias, sem chupar leite da teta, não fosse a original mãe apegar-se à menina de olhos de mar com nevoeiro.

Criou-se o ser com tetina de silicone e leite de lata, desviada da mãe também não criou laços com os adoptantes, tão amada iria ser no meio da riqueza que traria a felicidade que a pobreza da mãe não conseguiria comprar nunca, pelo menos assim se desculpavam os pais de papel por terem arrancado um ser de outro com poucas horas de mundo, na ânsia de ter objecto onde despejar a forte necessidade de amar para se sentirem com sinónimo!
A menina cresceu sorridente, inteligente, fria e independente, foi enterrando os pais na casa do lago, sempre em noites de pouca luz, geriu a vida sem amor num autismo atroz, nunca teria filhos, teve bonecas que desmembrava escondendo pernas num canto da casa, braços no outro e cabeças atiradas ao fogo para garantir que partes nenhumas se encontrassem até à eternidade!

24
Out22

Gente boazinha

Rita Pirolita

Estou farta de pessoas que praticam o bem sem saber a quem, com um propósito, de propósito, com segundas intenções, não impõem limites e queixam-se muito do cansaço de ajudar...estou farta de pessoas boazinhas, quero boa gente!

15
Out22

O bombo

Rita Pirolita

Detesto procissões mas não é que os bombos da banda dos bombeiros me estremecem as entranhas e me fazem subir as lágrimas a ponto de ter que dar nó na garganta para impedir que saltem!
Que vergonha seria chorar à frente de alguém, nem conhecidos nem desconhecidos, NINGUÉM!

02
Out22

Catarse

Rita Pirolita

Já ninguém usa roupa para se proteger? Pavoneiam-se apenas e só pela necessidade de afirmação, imposição e exposição da sua intimidade?
Estarão tão confusos e desprovidos de densidade interior que necessitem da catarse exterior dos seus anseios e fantasias?

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2020
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2019
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub