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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

Contos e Descontos

31
Mar20

De cu virado

Rita Pirolita
Já várias vezes escrevi aqui sobre os mais recentes movimentos atabalhoados de feministas e outros grupos que se auto-intitulam defensores dos mais fracos e libertadores dos oprimidos que querem sair do armário. 
Confesso que não gosto de maneiras esgrouviadas e pouco maduras, disfarçados de chicos-espertos querem-nos fazer passar por idiotas ao acreditarmos que são os únicos a travar a batalha contra a discriminação e a violência entre homens e mulheres. 
Queridas malucas feministas, verdinhas na história do mulherio, não sei se já repararam mas a violência sempre foi condenável e nada desejável, a humanidade sempre a justificou mal e porcamente, como um mal menor para a manutenção da paz, desde as inevitáveis guerras e não é por isso que estão extintas ou só fazem parte do passado, pelo contrário hoje são mais massivas e requintadas.

A não ser que a pessoa tenha um fetiche e aí força no chicote e aperto nos mamilos até uivarem de prazer mas mesmo quando não se falava destas coisas, não acredito que as mulheres gostassem de levar nos cornos e calar, não acredito que os miúdos gostassem de ser espancados com cintos, ou que fossem alvo de chacota na escola por serem gordos por exemplo e assim que pudessem não fizessem uma dieta para não terem que passar mais por esse estigma. Isto tudo sem ficarem traumatizados? É pedir demais!
A indignação nunca deixou de existir e agora e muito bem denuncia-se aos quatro ventos, tentam-se criar mecanismos para protecção das vitimas e sensibilização para comportamentos mais saudáveis mas não se deve cair na banalização e desviar a atenção dos verdadeiros abusos com denúncias de gente mimada e caprichosa do 1º mundo. 
Vejo muita gente a fazer queixinhas para candidatura a coitadinhos, a trazer a praça pública os maus resultados, apontar o dedo e indignar-se com tudo e mais algumas botas, do que propriamente alguém a preocupar-se com a sensibilização para dedicar mais tempo a uma educação de qualidade, que exige algum acompanhamento e dedicação é certo mas nada demais, comparado com o bom resultado obtido com maior maturidade de homens e mulheres de amanhã, que não se deixem subjugar por actos de bullying, que não achem normal no namoro que uma chapada de vez em quando não faz mal e até mostra que há paixão, mais ainda quando fazem as pazes, a seguir à tempestade é mais intenso, aceitam passar por umas tantas coisas más para terem prazer de vez em quando com coisas boas, como se fosse uma recompensa pelo tanto sacrifício...
Não percebo, eu que nunca gostei de levar porrada ou ter motivo para a dar...começo a achar que a maluca sou eu, não se preocupem, sou encartada e o lugar à frente da carreira para o manicómio é meu, de há muitos anos a esta parte! 
A falta de educação dá nestes cenários que as feministas tentam combater no final de linha, sem se preocuparem com actuações mais preventivas.
Com ferozes ataques, diabolizam todo e qualquer comportamento masculino de tentativa de interação com o sexo oposto, banalizando o assédio, e baralhando os sinónimos de chantagem, manipulação sexual ou mesmo humilhação psicológica em casa ou no trabalho, tudo coisas difíceis de provar mas que infelizmente existem, magoam e deixam marcas profundas, quase tanto ou mais que uma chapada às vezes.
Tantas vezes os discursos de denuncia reflectem frustrações tão descabidas, o que me leva a crer que estes movimentos nasceram de mulheres rejeitadas pelas mais variadas razões, por serem feias, umas grandes cabras ou terem um feitio de merda e por inveja quererem virar contra os homens até as mentes mais equilibradas, com defesa de valores quase hitlerianos, de imposições, de trocas pouco ortodoxas e até contraditórias, 'só faço isto se me fizeres aquilo que eu gosto na cama', 'tens que fazer sem esperar nada em troca'...
Mais até na questão do sexo, não andamos aqui também, para ter prazer ao dar prazer ao outro, a fazer coisas que nos dêem prazer, por mútuo consentimento e nunca por obrigação ou marcação de escalas? 
As feministas não quererão fazer parecer que o que as rodeia é tão bom ou tão mau como elas? 
Se um cagalhão se fizer rodear de mais merda, o seu próprio cheiro dilui-se e fica mais disfarçado.
Uma merda entre merdas não se sente uma merda tão grande! Será?
Que mania de andarmos cada vez mais a nivelar por baixo, com pouca exigência em tudo, exijam o melhor e terão pelo menos o bom, mas têm que se esforçar um pouco que seja e serem convictos e seguros naquilo que exigem, sem cairem na ilusão de que o céu deixa cair coisas, já lá tem o Sol e já é muito, para a merda que somos e da maneira atroz que tratamos o planeta!
É verdade que já somos demais, tantos que muitos até se podem dar ao luxo de andar de cu virado para a Lua!
Afinal somos assim tantos, por andarmos de cu virado uns para os outros ou por andarmos desde sempre a saltar para a espinha uns dos outros?! 
31
Mar20

Já que estou aqui a envelhecer

Rita Pirolita
Cada vez mais me vou apercebendo que no envelhecer se perde muito mais do que aquilo que se ganha e o pouco que se ganha já não faz tanta falta e falta força para gozar.
A sabedoria já vem tarde, só não queremos ter dores e chatices, queremos estar e comer como bem nos apetecer com a porra dos muitos limites, porque o corpo já não é o que era.
Podemos ser tão mais livres e deixar de trabalhar mas depois não temos onde gozar a liberdade, com dependências emocionais, se forem monetárias, pior e se forem somente monetárias, muitíssimo pior, de filhos e netos que nos rodeiam, por quem nos sentimos responsáveis e por quem sofremos e nos alegramos em amiúde ansiedade de bem estar. 
Neste momento em que ainda não sou velha nem nova, já amaldiçoo a sabedoria da experiência, cada vez menos me serve ou até sobra para uma vida de quem não teve filhos, de quem já superou o choque da violenta morte de uma mãe, que prepara e amacia o pêlo para a do pai mas que ainda me pesa e apoquenta que tenha de passar por ela ou por cuidado e amofinação na doença, por ser a filha única que tem que cuidar se assim for necessário, por obrigação e não por dedicação, a um pai apenas de concepção e não de presença ou educação! 
É um misto de desejo que a morte venha e não venha para quem ainda nos prende ou em último caso que nos leve antes para evitar o sofrimento de ver outras! 
Sinto-me mais simples até que um dia a morte já só leve um corpo, porque toda a vida já foi gozada mas se a sabedoria me trouxesse mais liberdade, menos amarras a gente que vou chutando para canto, menos chatices de que me vou esgueirando e cobranças que vou evitando, não pedindo favores a ninguém para não ter que retribuir...ah se a sabedoria me trouxesse essa liberdade já me tinha empanturrado e morrido de overdose vital! 
31
Mar20

O sexo sem hu(a)mor não tem tanta piada!

Rita Pirolita
Vou falar de sexo com o pudor que merece da minha parte ou seja, nenhum!
Não precisam de comentar ou expor o vosso comportamento mas vejam lá se não sentem também um pouco do que eu sinto. 
Sempre me intrigou o seguinte, filmes românticos, eróticos, de suspense, policiais, de zombies, vampiros ou até canibais, parece que agora não há género que não tenha que enfiar no guião como condição sine quo non, uma cena lá pelo meio de pirueta em vale de lençóis, no elevador, nas escadas, é onde calhar, nunca se pensa em DST's, preservativos ou mesmo tirar as collants e calças, tudo é penetrável, até a roupa. 
Ora bem, estão a ver aqueles filmes em que na cena quente ela é filmada em slow motion com os cabelos ao vento em posições sem refegos, celulite ou mama descaída, tudo é perfeito e rápido que nem coelhos, elas surgem na cena seguinte de roupão ou com a camisa dele enfiada à porcalhona desleixada mas maquilhada que nem Bela Adormecida e com o cabelo sem pintelho a despontar fora do sítio, tudo arrumadinho mas com um olhar de badalhoca, que só Deus sabe e o gajo que esteve com ela na cama!?
Estão por outro lado a ver os filmes que são uma sátira a estes? Em que ela na cena sensualona cai da cama, parte um pé, entala os dedos na mesinha de cabeceira ou aparece o cão dele com um olhar que a intimida e envergonha e junta-se à cena, não, corta, isto já sou eu a delirar! 
Pois, eu sou mais inclinada para estes lados, para este tipo de tragicomédia, não que já não tenha tentado fazer de boazuda, sempre me foram dizendo que sou gira e devia explorar mais a minha faceta sexy, que segundo todos os homens, todas temos. 
Sinceramente nunca me senti assim, prefiro pensar em mim como alguém com graça e piada, de ar divertido de quem está bem com a vida, a nível fisico a imagem que penso transmitir é de alguém com uma postura pragmática, porte mais para o atlético, calço o 41 e sendo alta posso dormir de pé como as galinhas, é sempre o que me dizem para serem simpáticos e não desagradáveis ao confirmar que de facto sou patuda, tenho umas mãos enormes, embora seja proporcional, isto não é de todo o cumulo da feminilidade e delicadeza, por mais que tente não parecer um elefante dentro de uma loja de cristais! 
Ora bem na senda de tentar descobrir alguma coisa em mim que os outros viam mas eu não queria admitir, tentei em algumas alturas forçar-me a ser sensual, em câmera lenta e tudo, confesso, não deu o resultado esperado, saiu mal, deu merda mas fartei-me de rir, não sendo a única a ser contagiada pela cena, quem estava comigo também confirmou, que estávamos lá para foder e rir se assim fosse o caso e houvesse oportunidade e não para andarmos a brincar aos cowboys, a esconder-me do Índio que me quer dar com a pena na moleirinha para castigo ou fazer-me cócegas nos mamilos como tortura. 
Por falar em personagens de filmes, nem me queiram imaginar vestida de enfermeira put@ e ele com arreios de cavalo, porque se não aí é que morro de riso e não fodemos! 
Ainda mais, detesto lingerie com fitinhas, botões, lacinhos, rendinhas e outro tipo de tirinhas, em vermelho e preto ainda pior, não vai com a cor dos meus olhos. 
Detesto que tentem impor celebrações como o dia dos Namorados, lembrar o dia em que o conhecemos, celebrar a primeira queca, a primeira semana, mês, trimestre, meio ano ou ano...arre, não!
Detesto flores empinocadas, então aqueles arranjos de florista não têm piada nenhuma, nunca consigo distinguir um ramo de festa de um para funerais.
Não gosto que arranquem flores em geral, deixem ficá-las no jardim que são mais bonitas e mantêm-se vivas por mais tempo. 
Pétalas de rosa e velas, suporto numa massagem, se for oferecida tanto melhor e como estou de olhos fechados também não vejo as paneleirices da decoração.
Por outro lado sempre achei que as minhas colegas de escola na altura das descobertas e não era do caminho marítimo para a Índia, romanceavam e mentiam muito sobre a cena, quando descobriam que para engravidar não é preciso saber foder, é só preciso foder...já era tarde e que além disso para foder não é preciso amar ou andar em busca do amor nas cavalgadas, também só é preciso foder! 
É óbvio que se uma pessoa encontra alguém com quem se dá bem, que existe aquela química, como costumam dizer os entendidos desses subterfúgios da fod@, tem mais tempo de descontraidamente ir descobrindo as teias do prazer e explorar afectos, não os beijoqueiros do Marcelo, valha-me Nossa Senhora da Espuma aos Cantos da Boca, kanoije!
Pronto, já perceberam por esta altura qual é a minha visão e verdadeiro comportamento incontornável que tenho e tanto me caracteriza, de me rir de tudo e ter prazer ao mesmo tempo. 
Não se resumirá também o amor a um animalesco desejo, bastante humor à mistura e algumas dores de corpo pela ilusão e boa vontade, de em determinada idade insistir em fazer posições de há 20 anos atrás, dentro do carro já nem se fala, ou inventar novas posições que não dão em nada, a não ser em torcicolos e quedas mais ou menos aparatosas?!...Mas nada nos pára! 
30
Mar20

Heidi, o avô dela, Pedro e o cão São Bernardo

Rita Pirolita
Por motivo que a vós não vos diz respeito e a mim não me apetece partilhar, estive à entrada do Parque Nacional de Jasper, sítio pipi de estância de ski e alojamentos de montanha, como se fossemos vizinhos da Heidi, do avô dela, do Pedro e o cão São Bernardo, sim aqui também os há e convivem bem com os gigantes malamutes, huskys e outros patudos grandes e peludíssimos!
Eu sei que a Heidi era dos Alpes Suíços mas isto por aqui é igual, então coberto de neve parece que nunca saímos do mesmo sítio e o c@r@lho do frio é o mesmo, qual Truman Show!
Como já disse não interessa porquê mas estive a poucos quilómetros da entrada do Parque, alojada num hotel que é um verdadeiro tesourinho deprimente, em modo canadiano. O modo piroso americano já todos conhecemos, quanto mais não seja dos filmes que nos impingem.
A cultura por aqui não é muito diferente mas tem alguns pormenores que merecem atenção à altura.
Começando pelos empregados que são todos índios, simpáticos qb, talvez até demais para um hotel quase motel de beira de estrada, de passagem para os que querem ir fazer ski ou snowboard mas não têm tanto dinheiro assim, pagam o forfait e livram-se de dar balúrdios por alojamento com pé na estância! 
Lá me vou armar em Eça de Queiroz, de descrições chatas mas não relações incestuosas que não tenho irmãos, sou uma cabra filha única, desmamada bem cedo que detesta gente caprichosa, mimada, Drama Queen e mimimis!
A arquitectura exterior é prego e racha, meia bola e força, como todas as casas aqui.
Tudo é feito em madeira, não há cá design personalizado ou de autor, é para o que serve e nisso até nem desgosto da atitude, mais vale assim que gastarem balúrdios em mariquices e depois sai uma bela merda que muita gente não sabe como nem consegue usar, não aprecia e ainda se perde no acesso aos quartos ou restaurante porque é tudo um labirinto, fruto de devaneios criativos do designer, que normalmente é paneleiro e maluco, que faz parte do lobizinho de outros tantos paneleirões e tias, que remodelam casas e jardins e ficam loucos com a mistura do moderno e antigo vitoriano, dos espelhos e dourados à jogador da bola! 
Devem andar todos a comer no mesmo sítio, para terem gostos tão próximos!
Que culpa temos nós na equação para levar com as frustrações e traumas do artista, pagos a preço de ouro, num espaço mal concebido, mal iluminado e mal aproveitado, tudo em mau e sempre a largar a lã todinha, tipo prato gourmet comido de dedo mindinho esticado e a ser enrabado ao mesmo tempo?...
Deixamos o exterior do alojamento, igual a tantos outros que abundam por aqui e no interior temos uma recepcionista índia que em vez de tailleur, imagino-a melhor de pena na cabeça e vestes coloridas, de mão na boca a fazer uau uau uau, como saudação de boas vindas e convite para mais tarde dar umas baforadas no cachimbo da paz, ali no cantinho da sala ao lado da mesa de bilhar. 
A alcatifa é bicho que prolifera por todo o Canadá, numa estagnação de tempo, para grande tristeza minha, encarquilhação das unhas, arrepio de todo o couro cabeludo e restante penugem corporal, além da electricidade estática e do ar condicionado, que me põem doente a toda a hora!
As cores são de uma monotonia para boi dormir até morrer.
Só para que não se riam sem acreditar, em muitos bairros, a planta das casas é toda igual e a cor também é exigido que o seja, o moço já disse que se vivesse num bairro destes, teria dificuldade em encontrar a sua própria casa e corria o risco de ir parar a casa alheia, que se fosse o lar de uma vizinha boazuda e gira nem tudo estaria perdido!...
Quanto a isto estou descansada porque vivemos num apartamento e vizinhas giras por aqui e arredores é coisa que não abunda, existe para troca muito camafeu e fufa, se alguém estiver interessado...
Ora bem, detida nas cores ainda me apraz observar que as paredes são de tom cocó, de cinza a castanho, pode existir um azul cinza ou um rosa cinza mas tudo muito apagadinho, já quase a desmaiar com falta de cor. 
O bar, salão de jogos, sala de pequeno-almoço, almoços, jantares e reuniões, é um e o mesmo local, decorado com as mesmas cores deprimentes e alcatifa coçada de tanto aspirador barulhento. 
Abundam molduras tortas e cheias de pó, ou se calhar nem tanto assim mas insistem no à média luz te vi, à média luz te amei e foi à média luz que à merda te mandei, que dá um ar sujo, porco e peganhento a tudo. 
As fotos variam entre vaqueiros e jogadores de hóquei, uma mesa de bilhar a um canto jaz triste com passado de grande movimento alcoólico e tacadas, vending machines em quase todos os cantos além de café e micro-ondas.  
Para meu espanto, que não sou de cá, à saída desta sala ouço água a correr e vou a ver, deparo-me com um lago interior claro, porque lá fora tudo congela, com água limpa e quatro peixes lá dentro, VIVOS a rabear e a olhar para mim à espera de comida, pormenor de monta, uma luz vermelha sai do fundo negro do lago-tipo-banheira-de-bebé.
Parece que estou numa viagem de LSD ao mundo dos motéis perdidos no meio do nada, onde todos os dias entram putas e saem dealers mortos!
Perto deste hotel existe um supermercado com prateleiras muito organizadas e empregadas simpáticas e bem dispostas, tanto que até estavam agarradas à barriga de tanto rir, enquanto uma delas me registava as compras, dirigindo-se a mim também ao contar a história de um cliente que vive na zona e apareceu para pedir um refund de uma galinha que tinha comido e lhe tinha causado alucinações, a senhora não podendo disfarçar mais o riso, chamou o gerente para resolver a misteriosa galinha aromatizada com erva. 
Afinal estamos no Canadá, sítio de maluqueira certa e séria!
Para que não pensem que sou mentirosa aqui deixo fotos deprimentes mas reais.
Sim, estive lá e ao pequeno-almoço às 6 da manhã estava a comer waffles congeladas, porque tive medo de as meter na torradeira por estarem a pingar, depois deixei de ser tão parva e agarrei-me a um muffin a pingar gordura, senti-me mais parva ainda. 
Desisti e bebi um café a saber a mata-ratos, dei um murro no peito e lá fui eu toda lampeira, preparada para a loucura do dia!
Estive o tempo todo a perguntar a mim própria, que c@r@lho faço eu aqui, num sítio desolado e congelado? Figura de quem bate bem da bola não é de certeza!


Banheira dos peixes!


Mesa de bilhar abandonada e triste, de notar o bom gosto nas cores e padrões contemporâneos!
29
Mar20

Pratos, copos e talheres

Rita Pirolita

Por mim as molheiras podiam ir todas à vida, ninguém usa molhos que entrem em molheiras e depois ficam para ali esquecidos a criar aquela película de gordura que dá nojo com aquele mau aspecto que já não vão sair da molheira a não ser directos pela pia abaixo, com bastante água quente a correr para não agarrar aos canos! Por isso esta peça nem devia existir, é uma ocupa, além de que tem uma estética quase sempre vitoriana e romântica ou seja, uma falsa peça que só está ali para mostrar requinte mas depois não serve nem para pôr azeitonas, enfim... 
Os pratos grandes, fundos, pequenos e médios podiam ser todos do mesmo tamanho e brancos, a mim não me chocaria nada e reparam vocês e depois não conseguíamos distinguir a sobremesa das entradas ou dos pratos principais ou até mesmo da sopa!? Então mas vocês distinguem as coisas pelos sabores ou pelo tamanho dos pratos? Não me digam que também não sabem lidar com a piroseira dos pratos quadrados? 
O mesmo posso dizer dos copos, já sei, alguns copos em forma de balão guardam mais os aromas do cognac, os taninos, o chocolate, canela ou frutos vermelhos do vinho, a lágrima do Porto Vintage, pergunto eu mais uma vez, não basta distinguir a coisa na língua e depois lá em baixo tudo se mistura para se agarrar às veias ou sair? 
Quanto aos pratos grandes que estão tão na moda na cozinha gourmet, deixem que vos diga, confundem-se com os marcadores de mesa, que muitas vezes têm melhor aspecto que as gamelas fundas, onde depositam uma ervilha com aroma de sapo.
Os talheres são o último reduto do baralhanço, são uns confusionistas, além de grandes, pequenos ou médios também os há mínimos, para peixe, carne, sobremesa, chá, café ou laranjada, conchas, colheronas, pinças, facas de talhante ou de pão, garfos em forma de forquilha para tourear o pernil de porco ou evitar que o perú se escape de encontro à parede ou acabe no regaço da tia que levou a melhor prenda e que só vemos em ocasiões especialíssimas mas é a única que ainda resta com algum dinheiro para deixar e como não teve filhos...não custa nada aturá-la por umas horas ao ano.
Por fim aquela peça que serve para tirar o molho da molheira, que também nunca se usa tal como a molheira, dispensável meus caros...
E os guardanapos de pano e suas argolas estranguladoras? 
Podem ser usados com gestos de requinte mas são nojentos e se forem de áspero tirilene dão-me cabo da cútis labial, desculpem a poluição mas guardanapos de papel estão bem para mim obrigada, é usar e deitar fora, enquanto que os outros ficam tão cheios de carrapetas que até teria nojo de os pôr a lavar juntamente com as minhas cuecas! 

29
Mar20

Correr, correr, correr...

Rita Pirolita
Correr, correr, correr...
Que cansaço mas aqui deixo considerações sobre a nova moda de correr e quem não pode caminha e quem não pode ainda menos, fica em casa! 
As seniores lá se juntam, divorciadas, amigas, amigadas ou aquelas que apenas querem deixar os maridos em casa ou no café.
Mas o grupo de que vou falar é o meu, melhor dizendo, que anda próximo da minha faixa etária, as antas dos entas, porque de resto não me meto nestas coisas, não sou adepta de grandes esforços, rotinas ou obrigações. 
Eu vejo barrigudos, coxas com celulite, gémeos que parecem filhos únicos ou então uma anaconda que engoliu um ovo de avestruz, barrigudas, mamalhudas e cuzudas, com banha firme ou a abanar, a correr com os bofes de fora, parece que começaram há uma maratona atrás mas acabaram de sair de casa e já estão pesarosos, a suar por todos os lados e a arrastar os ténis. 
Não tenho nada contra correr, CrossFit, bicicleta e outros, desde que não me esfalfe e veja os outros a fazerem-no, por mim está tudo bem mas o que mais me intriga e este é o propósito do meu texto, são as pessoas que observo numa quantidade considerável, quando passo de carro com a peida sentada a caminho de qualquer sitio do meu interesse, a correr em horas de maior calor e depois de almoço ou de jantar, de careca ao léu e camisa manga-cava a apanhar o bronze de trolha, elas de rosa Benetton ou verde ervilha, para que nenhum carro abalroe os camafeus que compraram o equipamento em promoção na Decathlon, antes de saberem se vão aguentar correr muitos dias ou desistir logo nos primeiros 10 metros. 
Não interessa, a roupinha de lycra também é confortável para trazer por casa ou dar um saltinho ao café a beber a biquinha depois de almoço e rematar com o Português Suave!  
O que anda esta gente a fazer à beira de estradas, que muitas vezes nem berma têm para correr, quanto mais para a largura de algumas nalgas, gente de bicicleta que à mínima passagem do camião do lixo são atirados para  cama de caruma...quando muitas vezes existe um caminho mesmo ali ao lado, com mais clorofila, com nenhum trânsito, um arzinho um pouco menos poluído e sem o risco de ser atropelado!
Esta gente de beira de estrada anda à procura de indemnizações por atropelamento, será que os seguros de acidentes pessoais acrescentaram alguma cláusula nova? Têm medo de ir para o meio da mata e aparecer um urso que lhes vá ao cu? Em Portugal a pior espécie de ursos anda fora das matas! Querem mostrar aos que passam que são saudáveis e fazem muito exercício? Querem respirar toxinas de cano de escape porque algum maluco publicou na Wikipédia a teoria que versa sobre maior abertura de pulmões e aumento da capacidade respiratória, isso de fumar está fora de moda?
Querem inspirar os automobilistas e mostrar que aquilo faz melhor do que aparenta, espelhado nas suas caras de babuíno, torcidas de esforço desumano?... 
Não sei o que se passa, já faltou mais para parar na berma de uma qualquer estrada e perguntar a razão de tamanha estupidez mas arrisco um convite de ajuntamento à trupe, para experimentar os prazeres de um bom dióxido de carbono em 2ª ou 3ª mão e isso eu não quero.
Estou farta de gente endoidada, longe deles, enquanto andarem entretidos não atentam a minha paciência e inteligência nem andam a fazer coisas igualmente estúpidas mas muito piores!        
29
Mar20

Adolescentes

Rita Pirolita
Desde que vivo na terra dos ursos nem uma vez por ano tenho ido a Portugal mas das poucas que lá ponho os cotos, apercebo-me de algumas mudanças, se não muitas, umas mais profundas e importantes que outras. 

Hoje vou falar de modas, fúteis e vazias qb para a minha bagagem mas que no entanto não me passam assim tanto ao lado, porque através delas vejo a postura e comportamentos de mais ou menos à vontade e pouca ou muita convicção de papéis. 

Se calhar vou cair na comparação de dois países muito diferentes mas que neste aspecto se estão a aproximar no mau gosto.   

Não poucas vezes já vi criticarem os calções nalgueiros que muitas adolescentes tugas agora usam no verão com a as bordas à mostra ou até mesmo no inverno com sugestivas collants de caveiras, corações, estrelas, folhinhos, rendas e outras coisas mais, que eu não estou muito por dentro disto e detesto usar collants.

Ora deste lado do mundo mesmo quando o frio aperta as adolescentes de hormonas reprodutoras aos saltos e acne selvagem, não se acanham e mostram o que têm, diga-se de passagem muitas vezes não é agradável de ver mas elas lá se pavoneiam em grande estilo convencidas que o mundo é uma passarela de modelos jovens mas já deformadas de gordas, com cochas que parece vão rebentar de gordura, rabos mal amanhados, banha na cintura e mamas de 10 filhos. 

A maquilhagem de 3 quilos em cada bochecha pelo menos, acompanha o mau gosto da vestimenta e lá vão elas pela frescura, seguras mas não formosas!

Eu pergunto-me.

Serão as mães a dar o exemplo ou incentivo?

Serão as jovenzitas que se querem afirmar e saem pela porta dos fundos sem que a família veja ou sequer imagine os preparos em que saem à rua?

Fazem a minima ideia da imagem que transmitem, se sim que olhares querem atrair? Os indiscretos de choque com a deselegância ou os de admiração com a sobriedade?

É claro que de sóbrio estas meninas não têm nada.

Percebo que se queiram afirmar e fazer notar, estão a crescer e a descobrir o que faz o mundo transbordar de tanta gente parva e inútil, o sexo, a sedução, o engano, os arrufos de paixões, as experiências mais más que boas, as DST's ou o uso de preservativo sempre. 

Os meninos, quanto mais ar de janados e sebosos tiverem mais apreciados são pelas aprendizes.

Finalmente chegamos à questão fulcral que deu origem ao texto na minha voluntariamente pouco esclarecida cabeça, quanto menos souber sobre estas coisas menos confusão me fazem e menos ligo mas neste cu de mundo é difícil alhear-me deste cenário porque pululam ao virar de cada esquina, desde velhas a novas com trasnparências e apertos de celulite que até dói olhar! 

Deixo as minhas questões que não quero ver respondidas, apenas me divirto a fazer este exercício. 

As adolescentes anseiam ter a tal profissão? 

Treinam bem que se fartam mas nem as verdadeiras se vestem tão mal e disfarçam melhor quando não estão de serviço. 

As roupas do dia-a-dia podiam ser um pouco menos de beira de estrada, na dúvida o preto fica sempre bem sem maquilhagem, pestanas postiças ou unhas de gel, lavadinhas, penteadas e perfumadinhas estão sempre bem e discretas para uma simples tarde às compras no centro comercial com as amigas, que isto é bicho que não passa sem comprar um farrapito pelo menos uma vez por semana!  

 

 

 
29
Mar20

Eu merecia!!!

Rita Pirolita

Apanhei com a terminologia do sobre-dotado de uma forma mais evidente, já eu tinha deixado de ser adolescente há muito. Até lá era assim...

Quase todos os meus colegas da secundária andavam em explicações, principalmente de matemática, caro que aquilo era e pagavam à hora ainda por cima. A mim nunca me viram lá. 
Sinceramente não percebo, todos os pais naquela altura diziam que tinham filhos super-inteligentes mas depois toda a minha gente andava nas explicações, justificação dos pais, 'o meu filho não sabe usar a inteligência que tem'. 
Porra! É nas explicações de matemática que o menino vai aprender a fazê-lo?...Sempre tive muitas dúvidas.
Verdade seja dita, matemática principalmente a do 12° ano que eu não tive porque era de letras mas conhecia pessoal das turmas de saúde e aquilo...nem era puxado, era sim uma amalgama louca de símbolos, letras gregas na sua maioria, (misturar matemática e grego é mesmo para dar cabo da carola ao pessoal), equações e inequações intermináveis e mais grave, via-se logo que nunca iríamos usar jamais em situação alguma da nossa vida aquela cangalhada toda.

O mesmo se pode dizer da filosofia, que eu por acaso gostava muito. De vez em quando lá aparecia cada maluco no manual ...
Olha o Sócrates, o filósofo não o intruja, passava os dias a pregar na praça e o discípulo Platão que desse ao dedo e escrevesse as suas ideias, quando chegava a casa ao fim do dia ainda levava porrada da mulher. 
Kant, desconfia-se que tenha morrido virgem e não pensem que morreu aos 10 anos, nem um broche, uma punheta, pegar de empurrão? Desgraçado.

A escola deu-me cabo da cabeça, não porque eu fosse má aluna pelo contrário, desde a primária nunca tirei nem 'uminha' negativa mas sempre senti que a escola além de controlar, cortar as asas e roubar tempo para viver, gozar e namorar, só me tentou meter balelas na cabeça e raramente me estimulou a pensar, sonhar e criar.  
Apanhei o primeiro ano da PGA, ideia do Ministro da Educação à data, Sr. Roberto Carneiro -béééééé, com um rebanho de filhos atrás, viva a Opus Dei. 
Não é que saquei uma alta nota, mesmo não sabendo ao que ia...eu e todos!
Por vingança e contestação, além da boa nota, escrevi um artigo sobre este Ministro e a PGA no jornal da lista K, a lista que acreditávamos ia destituir da Associação de Estudantes a lista A que se mantinha há já tempo demais. 
Mas a minha paixão sempre foi o desenho.
Costumo dizer que antes de falar já sabia desenhar e levo muito a sério a pergunta 'queres que faça um desenho para perceberes melhor?'
Os professores davam-me sempre a tanga que no primeiro período não podiam dar 18's, 19's e 20's e se eu tinha aproveitamento para isso! Até em educação física eu tirava altas notas. 
A desculpa esfarrapada que davam era que assim o aluno se esforçava até ao fim do ano lectivo...como um burro atrás da cenoura?!
Olha que merda de conversa, para já nunca ninguém me perguntou se eu fazia muito esforço para ter aquelas notas (por acaso não fazia), depois MERECIA e tinha provas - os testes.
No secundário até ao oitavo ano sentia-me deslocada, os meus colegas não liam Nietzsche nem sabiam o que eram os *sistemas entrópicos de Carl Sagan, naquela altura sem saber já era uma nerd, sem óculos. 
Vá lá que a Direcção da escola deve ter olhado para o meu aproveitamento e pôs-me nas turmas que reuniam os melhores mas nem sempre batiam bem da bola.
*Sistemas que se alimentam do "lixo" que produzem, não quer dizer que sejam eternos pois existem sempre perdas de energia. Um bom exemplo é a nossa estrelinha, o Sol que apesar da reciclagem um dia morrerá

29
Mar20

Quem vê caras, às vezes vê focinhos também

Rita Pirolita
Não sei se vos acontece mas acreditando que sou tanto ou mais parvalhona que qualquer outro mortal, tenho tendência a comparar objectos e animais que me fazem lembrar determinadas pessoas!
Há pouco tempo andei à procura de umas botas que fossem confortáveis, aliás, todo o meu calçado tem que o ser, até parece que nasci em África e andei quase sempre descalça e agora qualquer sapato me magoa, também não tenho joanetes ou qualquer tipo de micose, apenas tenho uns pés saudáveis mas pouco femininos, feios de tão ossudos que são, tenho pés de figurante de morgue, apenas a cor não é tão azulada mas é pálida, como eu toda me transformei, num ser de pele pálida desde que estou na terra dos coiotes, dos ursos, dos veados e mais outros bichos fofos à distância!
Ora estava eu a dizer que andei recentemente à procura de umas botas que dessem para o dia-a-dia, para caminhada e que fossem bonitinhas também, uma bota versátil e todo o terreno. 
Já as comprei mas para as descobrir comecei a perceber que o lado dos homens 'had much more fun'. 
Lá comprei o número que me servia, para uma patuda como eu, no lado dos homens senti-me uma princesa, por calçar dois números abaixo, já que as formas são maiores!
Mas enquanto andei no início das buscas pelo lado das ladys só me deparei com coisas que apertavam os cascos, com ar de fufa ou com ar de bruxa que só lhe faltava a vassoura e assim surgiu a comparação ali por volta do 2º ou 3º par. 
O moço começou a saga e disse logo, isso são botas à não sei quantas, que é feia como um bode, tem uns olhos pequeninos de morcego e um queixo quase a bater no nariz, entremeados por uma boca de lábios muito finos e sumiticos, a aparência está tão próxima que só lhe faltam mesmo as botas de ar rústico, de atacadores até meia canela, todas esgoiladas e uma vassoura de cerdas desalinhadas, prontinha a voar!  
Há outra comparação que costumamos fazer, de mais longa data, tal como a amiga em comparação com a bruxinha!
Por estes lados, é normal os carros serem todos enormes mas há uns que exageram, então de vez em quando lá se vê passar uma pick-up de rodado duplo atrás, o que a faz parecer uma amiga nossa que tem um grande pandeiro. 
O namorado da altura em vez de dizer que era gorda, era mansinho e dizia antes que ela tinha os ossos largos, quando passou a ex, começou a dizer aquilo que pensava e passou a chamá-la de gorda mesmo!
Por isso quando vemos passar uma destas, lá dizemos, olha vai ali a fulana tal de traseiras generosas! 
Todas as outras comparações são muito corriqueiras, menos pessoais e todos vocês já as devem ter feito, atribuir animais a determinadas carantonhas que saltam logo à vista. 
Já todos nós vimos milhentas encarnações de porco, de cachaço a fazer duas e três dobras de gordura, de nariz de papagaio, de olhos enviesados como os peixes...
O moço a mim, diz que tenho "cara de focinho" de esquilo, por ter um nariz arrebitado e bochecha que se veja para guardar umas quantas avelãs!
Os orientais nos seus diagnósticos pela face, além de lerem tendências e doenças instaladas, também conseguem determinar o excessivo consumo de determinado alimento em gerações anteriores, dizem por isso, que eles próprios por comerem tanto peixe têm feições 'peixivoras', eu espero que noutras vidas não tenha comido muitos esquilos, além de serem uns fofinhos eu sinto que já devo ser vegan faz umas quantas reencarnações! 
Tarde reconheço que os animais me inspiram e as pessoas me esvaziam?!...
Outros casos, são retratos fieis de quem vê caras não vê boa disposição, os chamados cara de poucos amigos ou mesmo cara de cu, que até podem ser muito boas pessoas mas a mim não me convencem nem a chegar-lhes perto. 
Dou apenas alguns exemplos e depois vou-me embora, para não ser trucidada pelos respectivos fãs. 
Dizem que o Mourinho é uma pessoa muito bem disposta...
Com aquela cara de cu?! Duvido!
As mulheres acham sexy aquele ar, que meio mundo lhe deve dinheiro! 
Para mim nem barrado com maionese vegan!
Dizem também que o Tony Carreira é uma pessoa muito divertida!
Enche pavilhões é certo com as quarentonas ressabiadas e encalhadas mas quando dá uma simples entrevista é tão apagadinho, sem brilho ou ânimo, parece que já morreu e esqueceram-se de o meter no caixão! Não se esqueçam é de pôr o capachinho quando o homem morrer!
A Simone de Oliveira, uma referência enorme no panorama da música ligeira portuguesa mas a senhora a quem todos elogiavam a belezura, aos meus olhos sempre pareceu um camafeu e pode ser muito boa pessoa, amiga do seu amigo mas sempre que fala é tão amarga e revoltada, não é uma pessoa que serenou com a idade, está sempre a chover no molhado com a conversa da Revolução e da censura!
O António Sala em novo tinha ar de actor porno e agora tem ar de pedófilo e continuo a dizer o que digo dos outros, se calhar e espero bem que sim, é uma jóia de pessoa!
A Amália Rodrigues em tudo tão diferente da irmã Celeste, que sempre teve um ar sóbrio, sereno e de gente certinha da cabeça. Acredito que a Amália já tenha nascido com aquele ar esgrouviado e olhar vazio e nunca pôde fazer nada mas podia ter deixado de cantar, quando já só murmurava fado arrastado como um bebedolas!
Já o Toy, mostra o que é!
26
Mar20

Bíblico

Rita Pirolita

Veio ao mundo um virus bíblico, de massacre silencioso, os líderes fecharam a boca à verdade e os cordões à bolsa do próprio povo, os tempos de contenção arrasaram sorrisos, aprisionaram crianças em lares pouco arejados com medo até de respirar!
Diziam uns que vinha dos morcegos, 'se invadimos o seu espaço eles defendem-se com um vírus demoníaco', outros opinavam que vinha dos consumidores de carne, a promiscuidade da proximidade de carne que come carne, podia vir até da renascida gripe das aves que ficando arrumada sem ser noticia de abertura, teve tempo de congeminar um ataque pandémico, que foram os EUA que o fabricaram e libertaram na China, que foi a China a querer matar meio mundo para continuar a hegemonia, que o islamismo que se espalhava pela Europa iria dar lugar ao comunismo!
Nada disto cabia na cabeça de Celeste que se virava para o marido e franzia o nariz cheio de sardas, ouvia o rádio e arregalava os olhos ou abria a boca de espanto ou tédio, por estes dias era o único yoga que fazia, o facial!
Ora Celeste que plantava as suas couves e fazia pão que distribuia porta-a-porta pelos clientes certos da aldeia lá em baixo, passou a trabalhar mais um pouco, aumentaram as fornadas de pão, já lhe pagavam em mel ou outras coisas que sabiam não ter em abundância lá por casa, andava ela contente com o aumento da partilha e troca directa que bem veio a calhar em tempo de escassez de dinheiro ou produtos de supermercado, quem era autosuficiente ajudava mais e resistia por mais tempo!
Os meses foram passando e ao fim de quase um ano tinham descoberto a vacina para o vírus descarado que se espalhou sem dó por ricos e pobres, inteligentes e ignorantes, os velhos morreram até nas aldeias, de velhice, verdade seja dita, nas cidades tudo mudou, muitos ficaram sós, também já eram ralos de família, laços e carinho, poucos se ajudaram e os que o fizeram sucumbiram ao cansaço de combater a doença ou atacados por ela em hospitais.
Sobraram os da aldeia da Celeste e tantas outras terreolas onde tiveram o bom senso e senso comum da sabedoria popular de ficar por casa a dizer adeus do quintal ao vizinho do lado, a atirar regueifas ou rebuçados de funcho, andava uma aldeia inteira em batalhas de pontaria feita às portas dos mais necessitados, a evitar com tanta boa vontade, partir janelas ou acertar nas preciosas floreiras de sardinheiras!
A vida de Celeste acalmou um pouco depois da pandemia mas não muito, sem esperança no futuro todos se tinham preocupado em desenrascar o presente, agora vinha o resultado cíclico, tudo mudou para ficar na mesma, apenas um patamar mais acima dessa espiral-mola que é o tempo, para coisas más estica e parece uma eternidade para coisas boas passa a voar a não ser para quem como Celeste que tinha o entendimento simples da vida, viver apenas em presente sem esperança mas com fé, sem expectativas e por isso sem desilusões, viver apenas os dias contados!

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