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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

Contos e Descontos

23
Set19

Arrepio

Rita Pirolita
 
 
Sabem aquelas pessoas com quem somos obrigados a conviver por questões laborais mas que nunca deviam ter tropeçado na nossa, já de si, errante vida? Quanto mais desejarmos que sejam nossas amigas, vizinhas ou até conhecidas do café, mas acabam por gostar de nós, porque somos as únicas com quem conseguem soltar uma gargalhada aqui e ali e até sentem uma invejazinha por sermos descontraídas, destravadas e irreverentes como elas nunca serão.  

São aquele tipo de pessoa que é tão oposta à nossa forma de ver e viver as coisas, que em vez de atracção existe repulsa, arrepio e pouca tolerância à sua presença mesmo à distância do horizonte, mais ainda na versão feminina, que tenta fazer concorrência directa aos seres do mesmo sexo, tempo perdido claro, mas também precisa de fazer amigos e não desgruda quando há rambóia ou simples mexerico. 
Mal elas sabem que são o tema principal da bisbilhotice e galhofa nos nossos momentos de descontração.
 
Pela descrição, até parece que me estou a referir a pessoas com comportamentos muito desviantes, tais como assassinos, políticos, palermas, estúpidos, etc. 
Mas não, estou apenas a referir-me a pessoas que para mim são sociopatas e psicopatas encobertos, para esta minha conclusão basta uma pessoa não saber estar sem trabalhar, ser sovina, convencida que é o cúmulo da pontualidade e profissionalismo, não saber falar de mais nada a não ser de trabalho, orgulhar-se de não gozar férias há 2 anos, ser peganhenta ao ponto de falar tão próximo da nossa cara que parece que nos vai passar aquele bafo negro de peçonha dos filmes de terror, para nos rendermos à sua seita de adoração e submissão lambe-botas ao patrão e ao Deus dinheiro, não aguentar uma relação por muito tempo e já quase se ter convencido que está sozinha porque é boa demais, mas continua a deitar a rede a tudo o que mexe e se não põe a hipótese de virar fufa, devia pensar seriamente no assunto e também não pensar mais em mim.
 
Eu trabalho para ganhar dinheiro suficiente para gozar a vida, não me esforço mais até ao próximo momento de necessidade e não disfarço esta relação interesseira com o trabalho. 
O trabalho por mais aprazível que seja é uma obrigação escravizante na visão de uma boémia contemplativa como eu. 
O amor próprio deste tipo de gente só subsiste com os elogios ao seu irrepreensível comportamento laboral e relação de fachada com os colegas, colegas que se forem como eu, escondem atrás de um sorriso amarelo, peninha da criatura que se esfola para mostrar que é a melhor e porque sem essa bajulação não é nada na vida nem põe um pézinho que seja, no adorável mundo da diversão e alegria.

Ainda existe um subgrupo desta espécie que também me põe os cabelos em pé, aqueles que nunca fizeram nada de jeito na vida, aos quais nunca pedi dinheiro emprestado mas a quem as minhas férias fazem muita impressão e são sempre demais!  
 
Ora dito isto, eu gostava de ter nascido já reformada e rica, sem saber que esta gente existe.
23
Set19

Lista de compras

Rita Pirolita
 
Comprar farrapinhos? Só mesmo quando preciso, transpiro que nem uma mula nos vestiários, seja Verão ou Inverno. 
 
Eu sou um bocado mete-nojo com listas de compras!

Vou fazendo a lista, às vezes a meio da semana passo a limpo porque nem eu percebo os gatafunhos que escrevi e se não faço o trabalho de casa, na confusão do hiper não vou decifrar nada de certeza
Já me conheço, assim que ponho um na superfície comercial apetece-me logo fugir dali para fora, mas lá tem que ser... 

Mesmo com as pressas uma coisa posso afirmar, nunca troquei courgetes por pepinos, tomates por dióspiros e bananas maduras e moles nem olhar ou tocar. 
Já sei que Lisboa tem umas mercearias todas pipi.
A câmara deu dinheiro a umas tiazorras voadoras para abrir botecos na baixa. 
Uma lata de atum custa quase tanto como uma lata de caviar rasca, eu percebo, as embalagens têm uma qualidade 'gourmet superior' o que me leva a deduzir que quem compra nem abre as latas de atum normalíssimo ou bacalhau de escabeche, porque têm estampados de Almada Negreiros ou Paula Rêgo. 
Também podem aproveitar as latas para fazer candelabros, fica 'supé chique' e fazem concorrência à Joana Vasconcelos!

Os hipermercados  não têm aquela fauna de fim-de-semana, casais de fato de treino, ele de sapato de verniz e ela com salto de agulha. Voltem! Perdeu a piada ir às compras. 

Lidl e Aldi. 
Aquelas prateleiras estão organizadas de uma forma negligé, só para nos alienar.
50 variedades de tostas crocantes, mesmo ao lado de 30 patés de todo o mundo...Não se faz!
 
Termino as compras e vou para casa com a sensação de que fui à guerra e venci o inimigo.
Toda a minha alegria cai por terra quando dou conta que não comprei os coentros que estavam na lista, caramba, como é que eu não vi?...Isto não é esquecimento é falta de vista.


23
Set19

Olhos húmidos

Rita Pirolita
 
 
Ando muito preocupada com os meus olhos húmidos...e o esforço que faço para que não se transformem numa torneira que depois de aberta tenho medo de não conseguir fechar? Desperdiçar água não é o meu género.
 
No meu tempo os homens não choravam e esta mulher não tinha tempo nem permissão. Nunca fui habituada a lamechices e dramas de princesa.
 
Tudo na vida foi aceite a engolir em seco e não a engolir lágrimas, lamber as feridas a um canto sem ajuda de pensos. Fui adulta na infância, por mim assim que nasci tinha logo saído de casa. 
O crescimento rápido e imposto não deixa lugar para a esperança de algum dia sermos muito gostados, seremos sempre secundários na vida de outros.
 
Agora e depois dos 40 a humidade vem-me aos olhos com muita facilidade e com as imagens mais estúpidas deste planeta, é tão estranho para mim que nem me permito chorar, aperto os lábios e limpo logo os olhos sem dar tempo que uma única lágrima caia
Apesar de ser humana, chorar é uma actividade estranha e rara na minha vida. 
Será que por nunca ter estado grávida tenho agora o castigo da emoção hormonal inexplicável com momentos palermas e inesperados? Perco quase o controlo e isso irrita-me porque não sou prefeita mas gosto de caminhar para lá.
 
O que se passa comigo que não percebo, depois de velha é que me dá para chorar?...Não aguento, não tenho dó nem piedade de mim. 
Quero ser uma velha arrebitada e o queixosa ou chorosa, nem mesmo debaixo dos lençóis.
 
E se isto forem tudo lágrimas de crocodilo?...
Depois da menopausa passa.
23
Set19

15 segundos apenas

Rita Pirolita

 

Já não via uma coisa tão boa desde há muito e não estou a falar da bebida que nem provei, não fui criada com refrigerantes de nenhuma espécie, com muito ou pouco açúcar, com sabores, com ou sem bolhas, nada, este corpinho parece um santuário sem fieis, mas hoje não escrevo para elogiar o meu corpo que nunca sofreu os efeitos nocivos da bebida.
 
Só quero dar os parabéns a quem quer que seja, que recuperou o ambiente dos anúncios que me marcaram. Basta apresentar o produto na sua plenitude, um copo a escorrer gotículas de frescura, pedras de gelo a roçarem-se umas nas outras, o liquido explode num orgasmo da lata suada, tudo acompanhado por um jingle de 15 segundos suficientes para pôr o coração a bater, pensar que tenho 16 anos, sou magra, muito gira e estou a dançar no Fame de sapatilhas AllStar, numa sala com bola de vidrinhos ao som desta explosão de bom gosto.
 
Desculpem, isto é muito devaneio para uns meros segundos de publicidade a uma bebida que é uma merda e faz tanto mal mas acho que são os 15 segundos mais bem conseguidos dos últimos tempos, sem gente desnudada, escalifrada da cocaína e feliz que até dói. 

São segundos de puro produto e prazer. 

Estou quase a acreditar que o melhor uso para esta bebida não é desentupir canos.  
 
Era só isto e digam lá se não é fantástico, ser feliz em tão pouco tempo, 15 segundos apenas?...
22
Set19

Modelitos

Rita Pirolita
De vez em quando dou uma espreitadela às páginas dos famosos, dos menos famosos, dos que querem ser famosos à força, dos que são famosos pelas piores razões e nestes incluo os dos reality shows, más apresentadoras, cantoras e actrizes e acabo também por bisbilhotar gente da altura da escola, amigos recentes e por ai em diante. 
Garanto que as surpresas são imensas, esfrego e esbugalho os olhos de incredulidade pelo rumo que algumas vidas parece que tomaram e digo parece, porque quase nada é genuíno e muito menos nobre nestas amizades cibernáuticas.
 
Descubro que uma amiga que era porta-estandarte do pragmatismo e das ciências e cuja ideia mais sonhadora que tinha na vida era apaixonar-se por alguém rico e bonito, se dedica agora a escrever textos esotéricos, não diz ainda que fala com Deus como a Alexandra Solnado mas simpaticamente já a trato no meu intimo por bruxinha. 
Realmente os indícios já lá estavam quando há muitos anos, para ai uns 15 pelo menos, me ofereceu um livro sobre linhas da mão e interpretação da grafia, com a exigência encapotada de no final da minha leitura lhe dar uma consulta de graça, já que esta pessoa era, se calhar já não é, a maior bota de elástico, incapaz de gastar o seu abastado ordenado de engenheira numa consulta daquele tipo com um profissional encartado da banha da cobra, além da exposição que isso lhe traria ao mostrar que até se interessava por essas coisas menos terrenas, que bem contrariam a exatidão das ciências.
 
Descubro pessoas que publicam textos que não são da sua autoria, textos bonitos em jeito de sermão, altamente proféticos e filantrópicos mas que são o oposto das acções que lhes conheço na realidade.
Muitas vezes fala-se mais daquilo que não temos e precisamos, confirmo...há tanta falta de juízo! 
 
Aquelas que publicam fotos quando estão bem maquilhadas como se acordassem assim naturalmente, na casa da Aroeira, têm um ou dois cães, um gato, um ou dois filhos, um casal de gêmeos é mais que perfeito, um marido que nunca aparece nas fotos que partilham mas imagina-se implícito naquela vida maravilhosa e falsamente equilibrada e feliz, sorrisos rasgados a mostrar os dentes branqueados, óculos de sol de marca cara e espero eu original...já agora. 
Publicam frases dignas de um Mahatma Gandhi acompanhadas de fotos exclusivas e actualizadas todos os dias, os telemóveis da nova geração são exemplo de eficiência e rapidez para estas pessoas que dizem trabalhar muito mas que mesmo assim arranjam tempo para tirar fotos, escrever frases lindas e ainda responder a todos os comentários de bajulação com bonecada que até ferve e borrarem-se todas em "mil beijinhos, adoro-te titi, love you sis", enfim...  
Isto deve fazer o ego inchar tanto que qualquer dia rebenta e espalha merda por todo o lado!
 
Os que não conheço pessoalmente, só têm aquilo que merecem. O objectivo é serem conhecidos o mais rápido possível e assim num período muito curto de ribalta sentirem-se amados e senão fosse escarrapacharem tudo o que fazem, não teriam a experiência de ter uma vida quanto mais amigos, mesmo que tão falsos como eles. 
Algumas queixam-se que falam mal das suas maminhas de striper mas que não as incomoda porque isso é só inveja. Boa sorte, até caires de fuças ao chão e rebentares o silicone!
 
Actrizes e apresentadoras que têm o Face pejado de fotos descaradamente inocentes a gozar o sol, a trabalhar com os amigos de cena, que são amigos da onça, não conhecemos nós o mundo do espetáculo? Qual ninho de víboras em competição feroz porque o país é pequeno demais para tanta falta de talento! 
Também digo uma coisa, nunca achei saudável ter amigos do peito no trabalho, nunca dá certo, soa a falso e só por conveniência ou comodismo, nada mais. 
Fotos com a cara encostada ao focinho do cão ou do gato ou da sobrinha, sim, estas estrelas não têm filhos porque ainda não encontraram quem lhos quisesse fazer e ajudar a criar, por isso tiram fotos com os sobrinhos ou primos para mostrarem que têm familia ou com os animais de estimação para escarrapachar na cara de quem os segue "olhem como estou com a melhor companhia do mundo, sincero no amor e dedicação, estou só por opção, não porque tenho um feitio de merda e acho que sou famosíssima, intocável e por isso não mereço estar com um qualquer sarrabeco que não seja tão ou mais famoso que eu." 
Atenção, eu gosto muito de videos de gatinhos, cãezinhos e criancinhas, mas sou contra a exploração da sua imagem, tenho dito! 
 
As mais novas que têm um corpo giro...são o cumulo, postam fotos, "olha eu no CrossFit, olha eu na dança do varão", que passou de actividade putéfia a animadora de maridos apáticos com a monotonia de ter uma gorda em casa todos os dias à sua espera e agora finalmente passa a tão bem reputada modalidade, não de entretenimento mas de desporto capaz de criar corpos de sonho. 
Não percebem que tiraram a piada às acompanhantes ilícitas e badalhocas? Já estou a ver qualquer dia o varão fazer parte dos jogos olímpicos e quem sabe paralímpicos. 

Estes corpos de famosinhas que têm metro e meio e por isso não podem desfilar na passarela, desfilam o rabo na praia em poses de modelo de calendário de oficina, de dedo na boca, a comer gelados com goji ou bananas que complementam com os igualmente "saudáveis" batidos para queimar gorduras, que arruinam o coração, fígado e rins. Para quê viver longo tempo com um corpo normal e ajustado às mudanças da idade, quando em poucos anos posso deixar uma boa imagem para o mundo e morrer sem chegar à idade da reforma com um rabo de miúda de 15 anos? Não correndo o risco de ficar na lista de espera para um transplante de fígado ou agarrada a uma máquina de hemodiálise.
 
Os estilistas que são quase todos gays não gostam de mulheres, por isso as fazem desfilar o esqueleto em roupas que pouco ou nada favorecem as curvas femininas. 
São estimulados comportamentos doentios nos homens ao ponto de os fazer acreditar que desejar mulheres adultas com corpo de jovens ou mesmo jovens que têm idade para ser suas filhas, lhes retira anos de cima e os faz sentir com 20 outra vez, quando em todas as idades temos um corpo diferente que deve ser cuidado.
 
Nem todas podemos ser Saras Sampaio e muito menos nem todas o somos de forma natural, a maioria faz dietas loucas, come limões ao pequeno almoço, faz plásticas, consome baldes de proteína a torto e a direito e diz que tem tendência para ser magra mas que sem sacrifício não se consegue um corpo de Ana Malhoa, que se me mostrarem uma foto de costas mais parece um camião, quando os homens que desejam ser mulheres querem ganhar gordura e curvas...
Decidam-se e dediquem-se a ser naturais, dá menos trabalho.

As nossas avós não tinham celulite nem eram obesas, gastavam tudo na lavoura, a lavar roupa e a ter filhos, não estou a dizer para começarem a cavar um campo de batatas e estragar as unhas de gel, mas vós que passais tempo em festas de beneficência para os coitadinhos, onde se gasta mais dinheiro a organizar o evento em si que aquele que é angariado, a ser actrizes, bloggers, a tratar o corpinho com os patrocínios dos ginásios, da make-up "maquilha enquanto fala, caga ou toma duche", viagens, spas, batidos, sapatarias, roupa, lojas de pechisbeque disfarçado de jóia cara, cremes, bikinis, cabeleireiros e autobronzeadores...MEXAM-SE só pela vossa saúde.

Não queiram fazer o mundo acreditar que estão orgulhosamente sózinhas porque se acham muito especiais mas quando têm mouro na costa "postam" tudo...porque daqui a uns meses já sabemos que a paixão arrefece e o ódio desponta.
Passam a vida a dizer que são pessoas comuns mas no fundo querem ser distintas e na realidade são mais insignificantes que um cão abandonado e têm vidas mais vazias que o comum mortal, que tem mais que fazer e anda ocupado a viver e muitas vezes a sobreviver.
 
22
Set19

Eu sou...sei lá

Rita Pirolita
 
Quem leia os meus textos pode pensar que sou louca, que me estou a marimbar para tudo, que não levo ninguém a sério nem a mim própria, que me rio de toda a gente mas nem toda a gente se ri de mim.
 
Eu sou tudo isto num comportamento bipolar de riso, choro, depressão e euforia.
 
O que querem? Nasci para ser rapaz, saiu miúda, para me portar bem espontaneamente sem exemplos de boa educação, para não ser artista que isso não dá dinheiro, para tirar um curso e ter filhos de alguém da classe média alta.
Nada disto até agora, nem à vista.
 
Outros ainda podem pensar que destilo ódio numa escrita com raiva e sofreguidão ou que sou acutilante com poucas ilusões mas muitos sonhos. Que sou poeta da banha da cobra ou prosista das causas pequenas e pequeníssimas.

Também posso ser tudo isto mas de certeza sou aquilo que escrevo e muito mais, com muita pressa de aprender e menos de envelhecer.
22
Set19

A reforma reformulada

Rita Pirolita
 
Os que ainda não chegaram à reforma andam muito preocupados em reformular o sentido dessa fase, a terceira idade.
Não querem passar por preguiçosos desanimados e planeiam fazer tudo o que não tiveram tempo para fazer.
Não se esqueçam que isso inclui as doenças todas que não tiveram por serem mais novos e não terem tempo para ficar de cama nem com uma gripe. 

Fazer muito exercício, baixar o colesterol e os triglicerídos. Depois de andarem mais de 50 anos a comer mal querem corrigir tudo no primeiro ano de aposento, quando o metabolismo contraria tudo e todos. 

Os reformados pelo contrário não os vejo tão preocupados com o seu estado, até porque estão entretidos a fazer o melhor bolo com a pouca farinha que têm.
 
Os 'activos desempregados' estão na idade de poder trabalhar mas ninguém os quer porque já são 'velhos', ficam no limbo à espera de nada e sem ordenado, a fazerem da sua principal actividade, o envio de currículos em frente a um computador. 
Já não acreditam que vão conseguir emprego e já não têm idade para jogar como o Ronaldo, trabalhar nas obras ou carregar móveis porque as hérnias já se instalaram, os ossos doem com a ameaça de chuva e a paciência está esgotada com um subsidio que não dá para nada e não dura para sempre.  
 
Além de tudo isto têm que se mostrar activos, não deprimidos e confiantes no futuro.
Se a vossa realidade é esta, imaginem o ânimo quando chegarem à idade de fazer népia, com mais maleitas ainda...
 
Por essa altura já não têm que fingir, podem dormir até tarde, ter diabetes, demência, esquecimento, mandar vir com os mais chatos ou não lhes ligar nenhuma, só ouvir o que convém, comer e beber o que apetecer, estar à beira das passadeiras uma manhã inteira a ameaçar atravessar e fazer parar todos os carros, andar desdentado com a placa no bolso embrulhada em papel higiênico, beber um bagaço de manhã e viajar ao passado, sentado num banco de jardim, porque têm tempo de sobra...
22
Set19

Cinefilando

Rita Pirolita
 
 
Ora bem, já chega de fazerem filmes de merda nomeados para 50 mil Oscares. 
 
O último barrete que me enfiaram foi O Renascido, filmado no Canadá, cujas paisagens de bonito pouco têm, faz um frio de rachar, só quem cá vive é que sabe e tem como protagonista um Leonardo Dicaprio que mesmo ao fim de tanto tempo de ferimentos, mais ou menos três horas de filme, fome e maus tratos continua com uma cara rechonchuda e ainda dá porrada no outro, até que a morte os separe. 
 
Os outros barretes já não os enfiei, estou a referir-me às  50 Sombras de Grey, às 50 Sombras Mais Negras ou 50 Tons Mais Escuros, como preferirem, são dois títulos péssimos e ao La La Land.
Quanto às sombras do Grey não li os livros, nem vi os filmes, o facto de todas as mulheres andarem a ter orgasmos ao comentar as cenas mais escaldantes tirou-me a vontade de ver e pôs em causa a credibilidade de tanta fama e bom gosto. 
Para já não me identifico com as mulheres da minha idade (40's), idade das divorciadas com patareca aos saltos que foram as que correram em massa a ver este tipo de filme, depois houve tanta gente que viu a dizer bem e tanta gente que não viu a dizer mal, outros leram o livro e como lhes pareceu tão mau não foram ver o filme, outros ainda houve que leram os livros todos numa noite e foram ver o filme e ficaram desiludidos por comparação à leitura.
Quanto às 'Sombras mais Escuras', não merece a pena, não se deve ver quase nada porque deve ter sido filmado com muito menos iluminação que o anterior.
 
Enfim, parece-me que se passa o mesmo com os que ouvem música pimba, não assumem que gostam, mas lá em casa têm os discos todos do Marco Paulo e Dino Meira e contribuíram assim para tanto disco de ouro e platina que forram as paredes dos verdadeiros artistas.
Eu ainda sou pior, não vou falar mal do que não vi mas também não tenho vontade de ir ver e gostar...ou não.
 
Os filmes que me marcaram já têm 20 ou mais anos, Blade Runner, Rumble Fish, Laranja Mecânica, Pulp Fiction e Um Peixe Chamado Vanda, são alguns bons exemplos, com excepção da série Breaking Bad que tem menos de 20 anos mas que me encheu tanto as medidas que já vi as temporadas todas, 6 vezes, eu sei, é demais. 
 
Comparando com toda a porcaria que desde aí para a frente se fez, fico sem vontade de ver seja o que for e já não acredito em surpresas criativas. 
Os filmes assemelham-se a histórias de encantar para adultos imaturos que não cresceram ou cujos 20 anos são a nova adolescência e os 30 a nova idade adulta. 
 
O La La Land, pelo que ouvi, é uma história de amor desencontrado em jeito de musical. 
Primeiro não acho piada nenhuma a musicais e consequentemente a um género mais rasca tipicamente português, a revista, acho mesmo um parente muito pobre do teatro ao ponto de o rebaixar a rábulas de riso fácil com cantadeiras de Moulin Rouge, por outro lado não gosto de histórias de amor sem densidade, embaladas na dança e contadoria.
 
Mas uma mentira dita muitas vezes passa a verdade, tal como as obras de arte que não o são passarão a ser obras de valor incalculável porque um bando de borra-botas se eleva a uma elite de emproados que incrementam a importância da obra de arte a ponto de a tornar indissociável e indispensável na vida do dia-a-dia. 
Eu sou artista, melhor, pinto uns quadros e tenho jeito para o desenho e nunca vendi a minha arte como essencial à sobrevivência de alguém ou que ponha comida na mesa e mate a fome aos filhos. 

Desde sempre, agora ainda mais, ouço os actores queixarem-se que estão desempregados, são eles e uns milhares de portugueses; que sobrevivem com dificuldade, são eles e mais uns quantos pensionistas que recebem uma miséria ao fim de cada mês.
Também se fartam de berrar aos sete ventos que é essencial levar público ao teatro e que a cultura é indispensável para  despertar a critica e a consciência social nas massas. 

Tanta baboseira senhores artistas, um gajo de barriga vazia pode olhar para um quadro mas não o aprecia como deve ser, nem se aguenta num espetáculo, nem muito menos gasta dez euros num bilhete que dá para uma refeição mas se outros comem barato e mal para andarem a mostrar o carro que têm, isso já é escolha do próprio cagão.
 
Por último, ouço sempre dizer que o país é pequeno para tamanhos talentos, isso já todos sabemos que somos um cu de mundo mas também existem sítios mais encafuados no meio de outras pátrias, olha o Vaticano ou o Liechtenstein.
 
Não existem países tão pequenos que não suportem grandes talentos.
21
Set19

Cozinhar para o povo!

Rita Pirolita
 
 
Até o Dr. Oz fala de comida, de dietas, de sumos Detox e leva fígados, vesículas e rins para mostrar a todos o mal que faz ao corpinho comer porcaria...

Mas hoje estou aqui para escrever sobre os programas de cozinha e os sentimentos que me provocam, já que não posso comer e cheirar o que fazem atrás do écran. 

Os olhos também comem?...Pelo menos quando vejo receitas do meu agrado começo a salivar e quase me consigo imaginar na mesa do repasto

Não me importo de comer mas sou uma esquisita do caraças, não posso comer, cheirar ou ver ovos, carne, sangue, banha de porco, polvo, ostras, baba de camelo, molotof e a lista continua.

A Filipa Gomes é a nossa Nigella Lawson portuguesa, lambonas rechonchudas sempre em dietas, num duelo interminável entre balança e goludice, não são lingrinhas como o Anthony Bordain, o Henrique Pessoa ou o Chacall, que parecem ter a bicha solitária ou andam sempre em petiscos, provam tudo e não comem nada. 
O Jamie Oliver se fosse português era criticado por usar poucos vegetais mas como é inglês toda a gente acha que faz comida muito saudável, basta pôr no BBQ uns pimentos e um alho francês e voilá, adeus colesterol britânico

A pioneira Maria de Lourdes Modesto com o seu inigualável livro Cozinha Tradicional Portuguesa, que todas as mães tinham no enxoval e a poupadinha Filipa Vacondeus e o seu arroz de cordéis de chouriço, tão bem retratada no Cozinho para o Povo do Herman, que nos pôs à procura de paprika nos supermercados, quando aquilo era simples colorau.
 
21
Set19

Dégolas!

Rita Pirolita
 
 
Como já perceberam, não sou fundamentalista com nada e até gosto de dedicar algum tempo da minha vida a experimentar coisas que pareçam válidas e exequíveis, para assim ir fazendo as minhas escolhas, aproveitar um pouco daqui e dali para tirar as minhas conclusões, boas ou más, passando é claro por muitos erros.

Há muitos anos decidi não comer mais carne, ovos ou beber leite, tudo isto me andava a enjoar, o cheiro, o sabor, as digestões difíceis e longas demais, enfim, passei a sentir-me melhor e isso foi o mais importante. 

Um dia quis ser mais saudável que a própria saúde e comecei a fazer uma alimentação macrobiótica, muito disciplinada e rigorosa, acompanhada por um interesse crescente pelo budismo e consequente evolução e limpeza espiritual. 
Escusado será dizer que adorei a descoberta mas aquilo não era para mim, andava na rua a arejar o esqueleto com o peso que tinha perdido.

Deixei-me de coisas e passei a guiar-me mais pela minha intuição sem nunca pôr de parte o precioso conhecimento que até ali tinha adquirido. 
De facto comecei a andar mais espevitada e não abandonei a fórmula até hoje.

Continuando a adorar a cozinha portuguesa, que é uma das melhores do mundo, de vez em quando faço incursões pelo seitan ou pelo tofu, pelo couscous ou pelo bulgur, cogumelos e vegetais sempre a transbordar do prato e sopa forever!
Já me aventurei a comprar comida vegetariana processada e a desilusão foi grande, desde salsichas de soja a queijo ou patés vegetarianos...dégolas!
Nunca represento um problema para os amigos quando me convidam para jantar, não têm que fazer um prato especifico para mim porque sabem que me desenrasco sempre com os acompanhamentos. 

Faço por ser flexível, até porque gosto muito de viajar, e ser picuinhas em países como a China, Malásia ou Filipinas?... Ninguém te liga nenhuma e se não fizeres pela vida passas fomeca.

Por tudo isto, não lido bem com pessoas que se controlam demais na esperança de viverem até aos 200 anos e morrerem saudáveis...que seca, esses mais vale despachá-los logo, jovens e ainda belos para não azucrinarem mais a cabeça aos outros.

Não concordo com o sacrifício de animais para satisfazer prazeres gastronómicos, está provado que não precisamos de carne para viver ou sobreviver, pelo contrário, o seu consumo excessivo traz problemas de saúde e ambientais, por outro lado sou capaz de gracejar sobre o excesso de zelo de determinadas pessoas em seguir à risca o que quer que seja, privando-se de dar e receber alegria e da liberdade de fazer asneiras de vez em quando.

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