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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

Contos e Descontos

06
Ago19

Compro ou não uma Bimby?

Rita Pirolita
 
 
Ter uma Bimby e dançar Kizomba, estão ambas na moda, sugerem, mas nada concretizam. 
A Kizomba sugere sexo em posição vertical e a Bimby vende com a promessa de comida "rapidinha", gourmet ou tradicional, gastando pouco sem sair de casa. 
 
Compro ou não uma Bimby?
 
A Bimby poupa tempo? Não, tens que preparar os ingredientes. 
Tal como as máquinas lavam mas não arrumam a loiça e os ferros de engomar não estendem, dobram e põem a roupa no armário...
Se não têm tempo para nada, esta máquina não aspira, nem limpa casas-de-banho.
 
Para casas cheias, deviam pôr no mercado a Bimbona, com direito a desconto no IRS para famílias numerosas!
 
Vais fazer uma feijoada que só dá para três doses? 
O pessoal come sempre mais um pouco e fica mais apuradinha no dia a seguir!
Com as quantidades que a Bimby cozinha não há sobras nem restos para o cão, não é por isso amiga dos animais nem dos donos!
 
Penso que a Bimby foi criada inicialmente só para fazer bechamel, tem o seu melhor desempenho neste tipo de molho que arruína fígados e dietas todos os dias!
Depois é que lhe inventaram mais funções, para justificar custar os olhos da cara ou de um rim no mínimo! 
Pelo valor a que vendem o robô maravilha, devia pelo menos trazer vibrador incorporado e levar o cão a passear e ainda apanhar o co.
 
Decididamente não vou comprar uma Bimby, imaginem que até já vi camisolas feitas na Bimby!
Porque andam a comer camisolas é que eu não percebo.
Eu não aprecio algodão nem mesmo orgânico e lycra nem vê-la, sou alérgica!
06
Ago19

Por falar em papel fino...

Rita Pirolita
 

Embora nunca tenha vivido no norte todo o meu sangue é de lá. Os meus avós tinham uma quinta, que para mim e para os meus primos era um universo infinito de exploração e experiências. 

Ora, quando chegava a altura de ir à casinha soltar o prisioneiro, sentados no trono, entretínhamo-nos a amachucar folhas amarelas da lista telefónica e isto não era nenhum segredo para combater a prisão de ventre, quanto mais amachucadas mais macias e perguntam vocês para quê esse ritual? Para limpar o CU!

Já havia papel higiénico mas era muito caro, só uma lista de páginas amarelas dava bem para 6 meses, se não andássemos de diarreia durava mais tempo. 
'Páginas Amarelas, vá pelos seus dedos!'

Ao lado do trono tínhamos uma banheira que na aldeia já era um luxo mas onde nunca tomei banho, só as aranhas tinham ordem para passear nas paredes esmaltadas. 
Tomava banho num alguidar de chapa, uma vez por semana para poupar a pele e despejava a água na horta, couves e alfaces andavam sempre lavadinhas.

Alumiávamos a noite com um candeeiro a petróleo ou velas, tudo cheirava a fumeiro, a sopa tinha o sabor de todas as sopas do mundo juntas, num pote de ferro de três pés, tudo era cozinhado a lenha numa cozinha de terra batida. Não havia frigorífico, tudo se guardava num "mosqueiro", uma caixa de madeira com uma porta de rede para impedir as moscas de entrar, mas se era para afastar as moscas não se devia chamar mosqueiro, que parece uma coisa com uma data de moscas lá dentro, enfim, nem tudo na vida tem uma explicação lógica. 
Ora esta pequena peça de mobiliário tinha que estar num local da casa fresco e seco e lá guardavam-se desde leite a manteiga, queijo e marmelada. 
Comíamos batatas com sardinhas contadas mas o azeite era divinal, as fatias de presunto eram tão finas que até o sol se via através delas e isto não era para poupar...só assim é que sabia bem!

Nesta visita guiada falei da casa de banho, da cozinha, a sala de jantar estava lá mas ninguém lhe ligava nenhuma, já que passávamos o tempo todo a brincar lá fora ou na cozinha a comer, sendo assim, só falta falar dos quartos. Dormíamos em camas de ferro com colchões feitos de palha, de manhã quando acordava estava metida num buraco que nem me mexia, saltava da cama, ajeitava a palha e deixava a arejar por causa da bicharada.

Um dia os meus pais resolveram dar um saltinho a Espanha para ir comprar caramelos e torrão de Alicante, eu não fui mas não se esqueceram de mim e trouxeram um recuerdo, como já sabiam que não gostava de bonecas, em vez de um chorão ofereceram-me uma bolsinha bordada a missangas, o meu primo recebeu um camião lindo, enorme e amarelo da Caterpillar, arranjei logo maneira de monopolizar as horas de serviço da viatura pesada, a bolsa ficou esquecida lá na quinta!

Os dias eram passados a correr, a brincar, a esfolar o corpinho...uma tarde bem me lixei, estavam todos a debulhar o milho quando me senti atraída por um monte fofinho de folhas e me esponjei durante uns bons minutos até que tudo no meu corpo começou a queimar, tinha a pele cheia de golpes finos mas que doíam como a porra, nunca mais!!!

Numa quinta não faltam animais, tínhamos desde cães, coelhos, galinhas, lobos a uivar à noite e carradas de gatos, são uma praga, os coelhos também mas esses acabam no tacho, os gatos bebés iam sabem para onde?...Para um balde cheio de água, coitados!!! Fiquei traumatizada.
06
Ago19

Celeuma feminista

Rita Pirolita

Apesar da celeuma feminista moderna, gostava de recordar que as mulheres na sua fraqueza fisica e papel de mães tanto eram protegidas como violentadas e dominadas, tal como os homens, julgados pela força, foram votados à morte nas guerras!
Agora digam-me que respeito existe para evoluirmos juntos?...

06
Ago19

Agostinho, o construtor

Rita Pirolita

Agostinho, menino beto da terra, filho de família de médicos, descambou de dentista ou advogado para construtor de Mercedes e putas, das mais carotas claro e por isso mais lavadinhas pensava ele, melhor serviço, maior satisfação e asseio para não levar para casa carrapatos, piolhos ou chatos!
Casou bem, teve um filho que previa levar às putas mas mal seria que aos 10 anos já o fedelho tinha pedido os Escuteiros, a devota mãe de missais e limpezas de altar achou genial a escolha do seu querubim.
Viu-se Agostinho envolvido num género de Opus Dei doméstico e lá passou a ter um certo ar de pato bravo da Maçonaria, não que a gentalha pouco endinheirada soubesse desses nomes ou grupos secretos, eram sempre uns senhores que enriqueciam não se sabia bem como, por esforço ou sabedoria não era, talvez por herança ou mais certo por golpes e falcatruas, muitas, constantes, amiúde ou uma certeira!
Andava Agostinho em vida de trabalho, subempreiteiros, máquinas alugadas, dragagens de rio, moradias pirosas à novo-rico ou pobre coberto de ouro, putaria, mulherzinha de sermões fatimistas, temerosa a castigos divinos, maldições e exorcimos, casta nas roupas, parecia ela nora de um médico, nunca esposa de um construtor, um filho saído entre a rudeza do pai e a sonssice da mãe com que não tinha que se preocupar, bons resultados na escola, a caminho de estudos nunca longe da biologia, floresta ou animais.
Uma tarde foi chamado Agostinho pelo engenheiro da obra, uma retroescavadora tinha empancado num muro rijo como cornos, um muro com 3 metros de grossura dizia o maquinista em exagero.
- Ó homem isso não existe, um muro dessa largura é uma auto-estrada! Dizia Agostinho em desprezo ao subalterno que só era pago para manobrar não para invenções ou palpites malucos!
Vamos lá então ver esse muro-pedregulho que já deu prejuízo, garfos da máquina partidos e obra parada por um par de horas!
- Eng° Agostinho...
- Ó homem, o engenheiro é você e da obra, eu pago-lhe para isto não empancar! Então diga-me lá que espécie de muro é este, dos rijos, que lascam ou porosos?
- Sr. Agostinho a questão é outra...
- Desemburre homem, não lhe pago para discursos engasgados muito menos para falar mas vá lá diga-me...
- Bem, eu mando abrir muitas fundações mas não sou arqueólogo mas isto Sr. Agostinho, sinceramente parece-me uma coisa de séculos senão de milhares de anos e já muitos mirones passaram aqui e não tarda muito estão aí os da Natureza e Ambiente a embargar seja o que fôr...
- Homem vire essa boca para lá...
- Vire o Sr. Agostinho a cabeça e veja quem vem lá...
Chegavam os capangas da Natureza, melhor dizendo o seu filho e um colega, bem apessoados, demais até!
Pensava o Sr. Agostinho que estava tudo resolvido, nas mãos da família tudo ficaria por ali e a obra continuava, se calhar até venderia melhor as moradias inventando que naqueles terrenos diziam-se enterradas preciosidades ancestrais, uma metrópole evoluida que ali tinha existido, portanto estariam a comprar valor horizontal e também histórico, antiquíssimo, sim que os antigos tinham olho para os sítios e como não havia tanta especulação e gente em outros passados longínquos, podiam apoderar-se das melhores vistas e dos terrenos mais planos ou férteis!
Pôs-se o filho a mirar o muro e o colega a tirar fotos, dias depois veio o comunicado que mediante avaliação em gabinete da especialidade, tinha o muro que ser contornado, não podendo ser destruído ou tapado, tinham que aguardar um período de nojo para averiguar das dimensões da ruína e artefactos que poderiam por ali despontar e contar mais do que ali se tinha passado, se calhar uma donzela encalhada entre muros de mosteiro ou uma comunidade de agricultores votados ao inóspito!
As negociações foram decorrendo entre pai e filho na maior das cordialidades e quase sem despontar relacção de sangue!
Foi ficando o campo de manobra apertado, o Sr. Agostinho já bufava a tempo inteiro, parecia uma chaleira velha, uma panela Silampos, andava inaturável, a esposa fugia do maçador que se tornara ao refugiar-se na preparação de quermesses, festinhas dos Escuteiros ou decoração da igreja em casamentos e baptizados, até se ofereceu como carpideira mas pouco chorosa, para apoiar familiares de defuntos que conhecia da vila em momento solene de velação.
Decorreram 3 semanas e meia e o Sr. Agostinho acedeu a incorporar o muro que se descobriu ser único e monumento isolado de uma antiga fábrica de tijolo, tudo a ver com a sua arte, fez-se uma vedaçaozinha com uma pequena placa a mencionar o valor da obra e do benfeitor que a protegeu ou melhor dizendo, não destruiu ou tapou, 'Descobriu-se este vestígio no decorrer de fundações para uma moradia, da qual o próprio construtor abdicou fazer para que gerações futuras pudessem testemunhar a arte ancestral de bem construir em tijolo-burro' Agostinho Albuquerque.
Apesar de rasgados elogios a pai e filho, pela obra-monumento levada a bom porto, havia também um acordo subterrâneo entre ambos, o Sr. Agostinho não assumia o facto do filho ser gay e o filho não se exibia nas ruas como namorado do colega de trabalho ou de qualquer outro nas redondezas! Restava saber de que larguras e comprimentos eram tais arredores!

06
Ago19

Os dois do litoral perdido

Rita Pirolita

Fui visitar família de dois, vivem numa aldeia perdida no litoral, ali para os lados da Figueira, pensavam que só no interior se perdiam os sítios, no meio de vales e rios serpenteiros?...Nada disso, vejamos o que vi.
Uma casa velha encaracolada entre estradas e caminhos, um enclave de pequeno pomar, que eu tenha visto, ameixieiras, laranjeiras, pessegueiros, macieiras e coisas da horta, courgetes do tamanho de abóboras, pepinos, feijão-verde riscadinho, macio como veludo, beterraba, batata doce, alho-francês, cebola e depois para comer galinhas e para dar de comer gatos escanzelados que parece chamavam outros em linguagem secreta, a avisar que ali havia alimento!
Ovos por todo o lado, fruta caída, tanta que tinha que se enterrar por causa da mosca, pintainhos e gatinhos, merda de galinha pisei eu 3 vezes, 3 vezes disse que nessa semana jogaria na Lotaria, 3 vezes me disseram que aquela merda não dá sorte, não interessa, fiquei rica com um saco cheio de fruta, vegetais e para terminar uns limões e umas limas, que se viriam a revelar secas, tudo por falta de água e cuidado!
Desculpas à parte dos proprietários, compreendi melhor que ninguém que alguém com 77 anos, já só quer ter o suficiente para comer e aquilo dava mais do que precisavam, ele da Marinha mas com pouca paciência para mares ou mesmo burocracias em seco, reformou-se cedo, trabalhou pouco, arrependido por agora ganhar metade, poderia ganhar mais, mas do lombo lhe saia, desdentado o lobo do mar fora de água, casado com uma princesa de 81 que se passeava em robe de setim pelo quintal cheio de garrafas vazias, folhas, galhos, gatos e merda de galinha, pernas inchadas, dificuldades tremendas em andar mas sem uma única ruga e uma réstia enorme de vaidade em ainda fazer com lápis preto, um risco na pálpebra superior!
Mostrou-nos ele o amor aos livros que nunca comprou, antes trouxe da Marinha aqueles que não se liam, muitos digamos, apenas para exibir, volumes da constituição francesa, sem saber uma virgula do país da Le Coq Sportif, ela lia, ele acomulava literatura e via televisão até às 3 ou 4 da manhã, a Volta passava nessa altura!
Tivemos visita guiada a uma casa onde nada tinha lugar e tudo ocupava todo o sítio, uma cozinha com lareira e mesa para sentar meio cento de gente, não tinha um centimetro disponível, pensei que não conseguindo encontrar nada naquele labirinto, esta gente cada vez que precisasse de uma colher nunca a encontraria e tinham que ir comprar, imaginei eu mil colheres, garfos e outras coisas mais por ali escondidas num amontoado que cheirava a comida, ranço e humidade!
Depois de reconhecer um relógio da marinha porque o meu pai, marinheiro também de curta duração, trouxe um igual do Alfeite, tive visita novamente guiada ao jardim das traseiras, de palmeiras, corais espalhados, panelas de aluminio cheias de verdete, lenha partida, âncoras e metade de uma boia de ferro a servir de fogareiro, pasteleiras ferrugentas e amarradas ao chão, bóias de vidro como berlindes gigantes, cheiro a pó de batata e mosto.
Pois sim senhora, gostei de tudo isto mas estes artefactos precisavam de brilho e vida, não de acabarem enterrados em pó como os donos mas cada um com a vida que quer e pode, não tenho pena, fico triste e não quero ser assim empoeirada de recordações, fotos baças, livros bafientos! Não quero morrer já enterrada na vida que me resta, que seja libertador e não um fardo que carrego para o outro lado ou mesmo que deixe para trás! Que seja surda e muda antes que tenha monólogos de recordações!
Agradeço aos dois por me mostrarem outras vidas e também por um velho Cartuxa com quase 20 anos!

06
Ago19

Escritorzecos

Rita Pirolita

Há uma estrondosa diferença e abismo entre aquilo que um escritor quer deixar escrito só para alguns lerem e compreenderem, mediante o nivel de erudição, os amiguinhos e aquilo que realmente quer dizer!
Cairão alguns na triste e veridica ideia que pobre é mal formado e não lê nem tão pouco se importa com cultura, dêem-lhe Fátima, novelas e futebol e estará satisfeito entre meia dúzia de amigos e umas grades de minis! Não foi nem é assim comigo ou seja, fui pobre e li Nietzsche aos 12 anos, gostei e compreendi, não serei pussidónia a escrever e em muitos casos, salvo raizes ancestrais que muitos autores estudam, se ler alguém que use palavras daquelas de marca, carissimas, frases longas, densas e quase ininteligíveis até para o próprio que às vezes até dá a impressão que se perdeu na escrita e vaidade da demonstração, parece-me sempre que se está a armar aos cucus, mais esperto, é o que pensa ser!
Que mal existe em escrever sobre uma panela de ferro de 3 pés, da fogueira, do gato e do raio da velha, que mal tem observar e desenhar em palavras o normal e compreensivel para todos?
Para que dificulto eu a chegada às minhas histórias?
Já não será mistério bastante não conhecer o autor das obras, não lhe puder responder ou ripostar, pôr em causa e até às vezes dar-lhe uns safanões, não cheguemos a tanto, queremos ser civilizados e é uma forma de dizer ou melhor de escrever mas que muitos me enrodilham a língua e me apetece degladiar em gritos de exclamação, reticências de engasgamento, esses sim, são os que com simples palavras me bagunçam toda e dito isto, um exemplo, Clarice Lispector.
Os autores têm que viver para lá do que deixam dito, mesmo escritos de décadas ou séculos, quando é bom não deixa de ser lido, de fazer sentido e de dar novos sentidos a outras vidas!

03
Ago19

Enjoos da Maria

Rita Pirolita

Mensalmente e até fora da menarca, tinha Maria quase sempre enjoos de gravidez, sem nunca estar em tal estado, imaginava ela que se o seu estado habitual era piedoso que faria somado a vómitos de concepção. Maria sofria assim de prenhice desde que nascera, náuseas, má disposição, uma pisca a comer e barriga sempre inchada na digestão, para ai de pré-natal de 4 meses, seriam os seus sucos gástricos um veneno doseado no seu pequeno estômago, que se ia libertando em doses autoimunes, que não matam mas moem?...
Com amigos ou namorados arranjava sempre maneira de se escapulir a jantares de aniversário, feijoadas de época ou fritos escleróticos, farinheiras ou ovos a cavalo de qualquer coisa, não lhe podia nem o cheiro chegar às penugens do nariz que logo se agoniava, o estômago começava em cãibras, o coração apertava e não raras vezes sentia um zunido nos ouvidos, uns diziam que seria doença do equilibrio de ouvido interno, síndrome de marinheiro em terra, que seria maus figados, azedume no pâncreas ou bilis estragada, mais azeda que o costume, vesícula preguiçosa, depressão, ioga ou chá verde podiam amainar, não comer feijões ou feijocas, hortaliças escuras, massas, sementes, vinhos ou cervejas, fermentos ou até alface...
Coitada da Maria que já não tocava em carnes mortas, brancas ou vermelhas, fazia para lá de uns bons 20 anos, ovos ou leite, só de os ver o figado encarquilhava-se, os olhos fechavam e o lábio superior levantava de um lado em nojo completo, quando para mais ainda lhe estarem a dar conselhos de mais restrição, que iria ela comer? Caldos de arroz e bifes de cenoura até ao fim da vida?...
Sabiam lá o seu sofrimento, todos os exames lhe tinham sido feitos, a dormir ou acordada, análises, contrastes, ecos, tubos e tubinhos, biópsias, agulhas grandes e pequenas e nada se encontrava, andava Maria contente por nada ter e ao mesmo triste por nada lhe encontrarem que justificasse tão mau estar!
Seria do cérebro? Estaria doença de loucura a agravar-se, já teria ela nascido com genes de tolice? Depressão? Falta de arroto ou peido não eram felizmente!
Com a idade tudo piorou, durante décadas sofreu enjoos de mulher fértil e grávida, na menopausa sofreu os humores mal parados, os calores-fogueira, uma tiróide que se revelou hiperactiva, uma libido que secou, irritação e procura de solidão ou que pelo menos a deixassem em paz a um canto sem a incomodar, a presença de pessoas por perto ainda para mais com solicitações parvas e fúteis, a esta altura e à visão de Maria seriam todas, tornavam-na agressiva e irascível, os animais acalmavam-na e eram sempre bem-vindos.
Estava quase sempre perdida em altos e baixos de vontade, ora muito confusa ora logo a seguir arrumava tarefas, sentimentos ou sofrimento em gavetões de alma, não tinha com quem puder falar, ninguém a compreenderia nem ninguém deveria ser incomodado com lamechice menopausica, essa coisa tão normal no mundo das mulheres que têm o privilégio de lá chegar! Também ela não queria partilhar ou que a calessem apenas dizendo-lhe sim, sim a tudo como aos miúdos chatos se faz. Estava a passar uma fase única na sua vida, muitos diziam, achava ela que tudo é único nem que se repita por milhões de anos em tempos ou espaços diferentes!
Nada desta normalidade convencia a anormalidade que Maria sempre sentiu, um incomodo de estar num corpo sempre estranho em cada recanto, nunca reconhecido como seu, um desassossego neste planeta que também não sentia ser o certo, nascida em época desfasada, parecia ela que se tinha enfiado na máquina do tempo em hora errada, um estado humano que nunca lhe foi familiar, queria ela às vezes ser um cão, seria mais simples de existir, de mais curta vida, menos ou nenhumas indagações, poucas decisões e muitas vontades sem hesitações existênciais!
Nada mais lhe restava senão viver o melhor que sabia e sem nunca em minúsculo amparo que fosse, lhe terem enunciado como o fazer!

02
Ago19

Quiaios

Rita Pirolita

O dia acordou com as ondas em terra de há séculos, as dunas, acordou em orvalho, neblina de mar, já em Agosto e só alguns apartamentos ocupados, carros de exibição de riqueza, topo de gama e todos os extras, cães gordos e velhas magras, miúdos de aldeia que em praia tão grande e deserta, dispersam a algazarra!
Gosto de dias em que o frio cá fora se aproxima do frio da água, numa simbiose de temperatura os pés molham-se com agrado, talvez mais tarde, lá para o almoço até ao joelho!
Pouca gente para tanta casa, este ano assim foi, a praia de Quiaios satisfaz os requesitos de que gosto, civilização qb sem muita gente por perto! Queixa-se um jovem revendedor ambulante de fruta, legumes, tremoços e azeitonas em baldes gigantes, em terra de mar lá se admite que nem uma peixaria exista? Assim nem restaurantes ou padarias decentes se fixam aqui, um bar de praia que fecha cedo e um outro que serve hamburgueres e batata frita, é tudo o que existe!
Esfrego as mãos de contente, com a calma do sítio nem fome me dá, fico plena com a maresia.
Mas não é só isto que vos quero contar, deu-se na praia um casamento, tules e cadeiras brancas começaram a armar cenário, os primeiros de negro viriam a funeral de pescador? Medonho mas não que aqui já não se pesca faz muito, outras cores femininas se assomaram à areia nascidas das dunas, compôs-se o trivial cenário de casório, bebés de colo com fatinhos até para lá dos pés, bandoletes em cabeças carecas, meninos de meio metro de altura já ataviados de laço, camisa branca de folhos e fatinho preto, à filho de funerário, fotógrafo descalço a correr que nem tractor em pantano para apanhar todos os melhores ângulos, convidados que se organizam, velhos a remexer chaves do carro no bolso com o nervosismo de meter os pés na areia que mais trava o movimento já atado das pernas, ficam para trás para andarem menos na hora da debanda, esposas gordas bamboleiam-se na areia, melhor rebolariam, por minutos as dunas páram de cuspir gente, todos se ajeitam mal, parecem cágados na areia de movimento pendular a puxar perna atrás de perna, surge o noivo de fato cor cimento, levado pela mãe de vestido grego esvoaçante, cor sangue pisado, mais uns momentos e sem compasso a duna volta a cuspir desta vez a noiva, vestida de cor concha sumida pelo sol, traz grinalda que se enrodilha nos cardos das dunas, um rasgão, não será presságio? Compensa-se com o vinho entornado no copo de água, que será bom augúrio! Desce a noiva leve no passadiço e logo que mete pé na areia corta o pé, pequena concha, nada de grave, vai em cocheio até ao noivo e lá se dá início à cerimónia!
Os pescadores na praia atentam na ponta da cana de costas viradas para a festa, uma mosca cai-me na toalha, dou-lhe uma berlaitada e vai parar à areia de barriga para cima, ainda a espernear, que tempo este, os animais estão moles, as andorinhas do mar desapareceram, as gaivotas pararam o berreiro esventrado e o silêncio do mar juntou-se pesado à neblina de mil tules que se abateu neste cenário! Um raio atingiu uma cana de pesca, o amador ficou logo ali, estendido na areia a espernear como a mosca que eu acabara de expulsar do meu território têxtil, alguém gritou ONDA!!! Ninguém teve tempo nem de se virar para fugir, uma onda rasa lavou convidados e levou cadeiras, ainda não tinha sido dito o SIM, a neblina adensou-se fofa que nem claras em castelo, tudo desapareceu à minha frente e se querem que vos seja sincera, nem eu sei se tudo isto se deu mas eu tirei fotografias cá bem de longe!

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02
Ago19

Buda e Shiva

Rita Pirolita

Dona Mariquinhas entregava-se à limpeza do seu pequeno altar, parecido a um presépio, um recanto da casa em que era sempre Natal, o menino anunciado da estrela que guiou os reis Magos estava sempre a chegar, ia ela e só ela cuidando do Deus maior espetado com pregos que devido à pequenez da imagem tinham passado a alfinetes com cabeça e tudo, presos em palitos que faziam a cruz, um Deus que pouco ou nada sobressaia no meio do paganismo de santos carecas ou com ovelhas, santas de ar descaido que nem cão repreendido, que choram, elevam as palmas da mão aos céus em modo bronzear a parte mais branca. Porque não uns santos de ar maroto ou posições sensuais, porquê sempre aquele joelho a tapar outro em modo estou à rasca para mijar ou esconde, esconde os aparatos sexuais, santas nunca mamalhudas ou rabudas, bem faziam os primórdios das grutas em que as deusas da fertilidade eram um deboche inocente e verídico, eram voluptuosas, de seios grandes empinados e grávidos ou descaidos de amamentar, ancas largas, rabos enormes e proeminentes, braços banhudos, coxas insufladas...bem, a Dona Mariquinhas não ia a esse ponto de inclusão tão liberal mas lá admitiu um Buda pequeno, oferecido pelo vizinho Amaral, após a morte de seu marido Ezequiel, disse o respeitoso Sr. Amaral, vire-o para a parede, de costas para si, talvez lhe devolva alegria, imaginou Dona Mariquinhas a felicidade a fazer ricochete na parede e a bater-lhe nas fuças, seria isso quando diziam que muitas coisas estavam ali mesmo debaixo do nosso nariz e nós não as viamos por falta de clarividência espiritual, fé, crédito ou fosse lá o que fosse isso da religião e acreditar em dias melhorzitos?...
Pareceu sim que aquele Buda vinha com o desejo do Sr. Amaral ser o segundo marido tão bom ou melhor que o primeiro, e arrematava dizendo que era tudo no maior respeito pelo falecido. Dona Mariquinhas fazia um ar inocente de miúda nova nas conversas, nem de beata, nem de sabidona disfarçada mas que o Sr. Amaral percebeu que ela percebeu que a conversa era de engate à moda antiga, ai isso percebeu, o velho repenicado a fazer-se à viúva ainda fresca e coquete!...
A esta feira de desfiles foleiros naquele altar, que era assim uma espécie de tunning de altares domésticos, juntou-se uma Deusa Shiva, cheia de braços, última oferta do neto vegetariano, dizia a Dona Mariquinhas que aqueles braços todos por detrás da Deusa que tinha uma cara hermafrodita, se pareciam a cobras e representavam pecados do lado direito e virtudes do lado do coração e quando se cruzavam sobre o peito os braços do bem amenizavam os do mal e assim que se voltassem a apartar as indecisões voltavam a atacar as almas mais desprotegidas, a Shiva já não precisava de estar voltada para a parede como o Buda, era uma deusa mais hippie e peace and love, podia perfeitamente estar naquela posição de ioga, a olhar para nós com aquelas maminhas de indiana e cara de homem adolescente, sobrancelha grossa mas olhos contornados a preto!
Dona Mariquinhas também pensava, aquilo lá nas indias é uma pobreza mais pobre que a própria pobreza, que ninguém deve andar atento a pinturas de olhos ou batom ou se é homem ou mulher, convém é que seja trabalhador para sustentar a família, daí talvez aquela deusa fosse o desejo de muitos, ter braços para trabalhar tanto mas tanto que se acumularia riqueza muito antes de morrer, ainda bem a tempo de gozar sem doença de maior!
Dona Mariquinhas tratava o seu altar com asseio como um imperiozinho açoriano, organizado e limpo por dentro e aparatoso e confuso à distância, com umas cores berrantes que mais pareciam pintadas de fresco de hora a hora como nos templos das tais indias, pensava ela, porque com tanta gente a reproduzir-se aquilo não podia haver trabalho para todos, então os mais pobres ocupavam-se do embelezamento da fé na senda de uma malga de arroz!
Amiúde, a viúva não frequentadora de igreja em dia de missa, ia pondo em causa a Bíblia, melhor dizendo, as traduções bíblicas, os apóstolos escreveram as pregações, ditos e ditames de Jesus que não escreveu nem um ponto num i, como o seu preguiçoso antecessor Platão, tinha nos seus apóstolos, fieis seguidores e aprendizes como Aristóteles, cada um deve ter feito a sua interpretação e depois de escrito e de ser o calhamaço mais traduzido em todo o mundo, muita coisa se deve ter perdido, fora as mentes distorcidas pela ganância e domínio que em vez de verem iluminação nas sagradas escrituras, condenaram tudo ao pecado retrógrada, definhento e obscuro como Peste Negra!
Foram surgindo na sala do altarzinho piroso umas tertúlias a dois, apenas ela e o insistente Sr. Amaral que a foi conquistando com garrafinhas de vinhos finos licorosos, da sua colecção de miniaturas, lá achou ela que lhe deveria dar oportunidade antes que a colecção se fosse numa só noite em uns tantos golos ou que chegasse ao saloio licor de Merda, já que cada sumitica garrafinha era limpa num só travo, um engolir de cuspo!
O Sr. Amaral falava de suas maleitas sempre a minimizar os efeitos e defeitos do corpo sénior, para se mostrar ainda na flor da idade e com vigor de jovem e ela lá ia falando das suas, uma noite até lhe mostrou as imagens 3D de uma endoscopia que tinha ido fazer, estava tudo bem e fez questão de realçar as bonitas cores das suas entranhas, um rosa suave que nem um porco doméstico, falavam também da felicidade fugidia como a vida, ambos viúvos queriam voltar a amar para não se sentirem tão sós, não sabiam estes dois velhos triviais que mesmo amando com companhia nos podiamos sentir profundamente sós, se não amássemos a solidão de raiz, uns Fernandos Pessoas à deriva no meio da multidão, tivessem eles amor próprio e soubessem que a felicidade é ela própria uma das melhores companhias além da inevitável solidão do nascimento, vivência e morte, apenas uma forma de olhar o mundo tal como uma religião mas daquelas como o budismo praticado à séria ou a da Bíblia bem traduzida, sem vírgulas a mais ou a menos, sem pontuação fora do sítio ou palavras embelezadas, amenizadas, aguçadas ou distorcidas, se calhar os mandamentos nunca foram imposições e sim hinos à liberdade e arbitrariedade de almas bem formadas que sabiam de antemão que matar ou cobiçar não fazia bem aos receptores nem aos originários do sentimento ou acto, em vez de não matarás, seria mais um não deves matar, uma premissa de boa conduta, deves pensar na irresponsabilidade dessa energia de reacção que vai activar e atrair consequências menos boas! A religião devia ser assim como um algodão que às vezes ficaria levemente sujo, nunca conspurcado, peganhento ou pesado de pó, deviamos ser um todo de algodão semi-sujo porque também não somos tão perfeitos ao ponto de desaparecermos, sermos apenas luz e Universo, seriamos no máximo semi-deuses a favor do teste do algodão, que tédio seriamos sem lutas, indagações ou tentações só das boas tipo luxúria mas as religiões não vieram como algodão de demonstração da brancura, nem o deus Ariel chegaria a tal alvor, vieram como pensos rápidos para aguentar a ferida, oferecer em troca de sacrifícios de uma vida inteira, alívio de apenas horas, dias ou até à próxima Páscoa e a salvação apenas para lá da vida não vivida, no fundo uma vida morta antes da morte, em vez de acreditarmos no melhor potencial, preferimos sempre invocar a deuses que nos salvassem das cobras do espírito com mezinhas, bulas pagas por quem tinha soldo, rezas e rituais, pedir desculpa em vez de evitar!
Foi assim que um dia o Sr. Amaral acudiu à Dona Mariquinhas que aflita se tinha engasgado tanto que nem conseguia dizer o que lhe descia no cano, ambulância e bombeiros acorreram ao r/c direito para salvar a senhora de olho esbugalhado, faltava-lhe o ar a que nem peixe falta água, os peixes morrem com ar a mais e nós com ar a menos, sem ar ou com água a mais!
Hospital e cemitério, Dona Mariquinhas finou-se horas depois do salvamento, manobras de Heimelish e reanimação não foram poupadas mas o ar que lhe faltou e não voltou ao cérebro, matou os órgãos de desfalecimento.
Mostrou-se o Sr. Amaral interessado nos resultados da autópsia, que com delicadeza pediu ao neto vegetariano lhe fossem comunicados assim que possível, ficou assente que seria informado!
Chegaram passadas duas semanas, o neto da Shiva passou o relatório ao Sr. Amaral, com mão levemente trémula e olhos de compaixão, Dona Mariquinhas tinha morrido por engasgamento e asfixia por ter engolido um Buda de pequenas dimensões, que ninguém sabia porque razão se tinha posto nas entranhas rosadas da viúva, que até era um pouco alegre, em segundo parágrafo, uma Shiva estaria alojada no recto sem ter partido um único braço, não sendo no entanto a causa do óbito.
Os deuses sejam louvados mesmo que invocados aos buracos mais insondáveis e negros!

02
Ago19

Raquel e Álvaro

Rita Pirolita

Raquel andava pela verdura sem cântaro, casou com Álvaro das lides, não das tascas, apenas das casas de pasto com brasão!
Ao dia do desfloramento não verteu ela pinga de sangue nem uivou dor mas também nem prazer, muda se fez até ao amanhecer, dormiu tranquila para inquietação de Álvaro.
Então Raquel confirme lá de boca a virgindade de baixo?...Raquel assim o fez e Álvaro acreditou, também já tinham ido os tempos do lençol sanguinolento estendido na janela à espera de apupos libidinosos, além de que ela nunca tinha saído debaixo dos olhares atentos da aldeia.
Foram decorrendo os dias e mostrava ser dona de casa inexperiente mas votada e devota ao perfeccionismo, os cozinhados melhoravam de dia para dia, a limpeza tinha como irmã a imaculada e o corpo da doméstica domesticava-se às mãos do másculo marido de farto pêlo no peito e membro grandioso que Raquel aguentava sem dor e com lascívia crescente. Álvaro acreditou que estava a fazer uma mulher, uma menina a crescer para o sexo e Raquel mostrou-se aprendiz de intuição sem precisar de cartilha, repetições monótonas ou ditados panhonhas, sabia ela passado pouco tempo onde tocar e levar aos céus o seu homem, já Álvaro, ser de mais experiência estava mais perdido e indagava como tinha ela adquirido tanta sabedoria de cama e das intimidades em tão pouco tempo, começou a duvidar novamente da virgindade da sua donzela mas sem grande preocupação acabava sempre por esquecer essas dúvidas perdido em noites de prazer, um dia Raquel até lhe disse quando ao se levantar do leito lhe vieram das entranhas escorrencias dele - abortei de ti sem fecundação!
Álvaro cada dia se surpreendia mais com sua esposa e começou a notar que apenas um sopro no pulso direito a faziam mergulhar de olhos semicerrados na humidade dos corpos, sem hesitação deixava-se levar fosse para onde fosse desde que fosse para o acto consumado.
Álvaro já não dormia descansado ou andava tranquilo durante o dia, só de imaginar que sua mulherzinha se podia entregar a outros braços apenas com um sopro no pulso direito, se alguém por acaso descobrisse a abertura dessa caixinha nunca mais se fecharia e Álvaro passaria de imediato a vergonhoso corno.
Sem demoras mandou Álvaro fazer na melhor costureira umas pulseiras de setim, tinha centenas, tantas quantos os dias do ano, de cores diferentes, com pérolas, com flores miudinhas de grinalda de noiva, malmequeres em seda, papoilas em cachemira, não podia ela esquecer-se um único dia que saisse à rua das suas pulseiras de pulso direito, mais importantes que uma aliança, andava assim Raquel protegida e distante das traições pelo pulso que destapado a tornariam na maior puta de todos os tempos e arredores!
Em dia moliquento saiu Raquel à padaria e trazendo na volta pão cheiroso houve um cão esfaimado, raivoso e cheio de pessonha e sarna que se atirou ao pulso direito da indefesa Raquel que não tendo medo de animais também não se aproximava.
Foi ela parar ao consultório do doutor que logo pregou injecção na nádega de penicilina, ainda a cheirar a curativo foi com a mão entrapada para casa, esteve dias e dias em febre ardente, Álvaro estava em cuidados não só de saúde geral como em particular do seu pulso excitante que tinha sido mordido por cão tinhoso do mafarrico.
Tudo se fez para salvar o pulso de Raquel até que o cheiro da podridão das carnes começou a corroer o ar da cama, sem hesitação amputou-se e Raquel foi levada em braços para descanso que mais parecia eterno, fez Álvaro enterro ao pulso de sua esposa e declarou óbito ao sexo até ao fim da vida!

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