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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

Contos e Descontos

29
Jul19

Adições

Rita Pirolita

Dantes toda a gente fazia por não revelar passados obscuros, agora usam-no para ter fama, todos os actores têm um passado de adição a drogas ou álcool e é exposto como motivo de orgulho e exemplo de sobrevivência às agruras da vida.

Façam-me um favor, olhem para os tantos exemplos de gente com vidas muito piores, enfrentadas a seco! Cresçam e depois desapareçam!

29
Jul19

Os ciganos e o trabalho

Rita Pirolita

O professor dava aulas de jardinagem no Centro de Formação, numa aula prática de exterior um aluno pediu-lhe que não o pusesse junto à vedação, não queria ser visto da rua, o trabalho era desprestigiante para a sua comunidade, os ciganos!

29
Jul19

Cassiano e Mariana

Rita Pirolita

Fiz a primária na década de 70, altura em que os alunos que não tinham aproveitamento, porque deixavam de ir às aulas, naturalmente não passavam de ano, eram assim mantidos até aos 16, 17 anos a conviver com miúdos de 6 a 9 anos, pelo menos. 2 destes matulões tentaram violar-me...

Mais tarde foram apanhados pelo meu gang e pude desferir pontapé à vontade.
Uma das meninas com que mais brincava na rua mas que não ia à escola, era a Mariana, mostrou-me uma Barbie pela 1a vez, que os tios de Espanha lhe tinham oferecido!

O Cassiano matulão e a Mariana, foram o pior e o melhor que conheci dos ciganos, para lá disso, consigo ver e aceitar o pior e melhor de tudo e todos!

29
Jul19

Quando

Rita Pirolita

Quando se finarem de vez as almas ainda veladas ireis ao céu pedir contas, bater a aduela sem porta, destrancar os corações sem fechadura, partir os maus em mil bocados e rachar ao meio os bons para fazerem o dobro! Ireis sem voltar para contar tudo o que não se fez, rezou ou pagou a bula para ter!

29
Jul19

Há festa na aldeia

Rita Pirolita

Em mangas de camisa exibem banha ou corpos depilados de peitoral masculino tatuado, elas ou são barris ou esculturais sem meio termo, a música de letras picantes e ordinárias, com batida de 2 a 3 tons sem grandes variações, sai das colunas tamanho emigra, estrategicamente postas no largo da igreja para infernizar em todos os pontos cardeais, ouvidos de visitantes e uma dezena de moradores da aldeia, é só uma vez por ano, a bebedeira que transpire, as figurinhas tristes que dancem cambaleantes, até ao próximo ano tudo se esquece e tudo se repete.

29
Jul19

Deuses loucos

Rita Pirolita

Os lugares são o que deles fazemos e como os olhamos mas também o são sem nós! Não existem para nos agradar, nós é que nos pespegamos à sua beleza, algum dia uma cascata nasceria para deleite de tão imperfeito olhar humano? Os deuses deviam estar mesmo loucos quando nos ofereceram tamanha beleza para tão curto olhar!

29
Jul19

Joaninha

Rita Pirolita

Joaninha estava radiante, apanhou o amor de verão que apareceu na aldeia, queria ela ser a internacional do sítio ao casar com um estranjeiro oriundo de três dezenas de quilómetros de distância dali!
Dois terços da festa ficaram logo pagos pelos pais do noivo, deixaram os pais dela decorrer a factura logo debaixo da primeira insistência do outro lado, já levava a sua menina dote que chegasse para pagar dez festas de casório iguais àquela, uns terrenos de sobreiros que davam uma cortiça rechonchuda, bonita e dourada nas entranhas, cabeças de gado com caseiros para tomar conta, tratasse ele bem a donzela e teria todas as mordomias!
Após festa de quatro dias, bebedeira de um dia e ressaca de três, comezaina noite e dia, que durante 5 dias a aldeia até andou atordoada a recuperar do regabofe, casais desentenderam-se, divorciaram-se outros, namoros reatados, desfeitos, apanhados 3 na mesma casa-de-banho, alguns tiveram que se mudar para outras terras, tal foi a vergonha da desbunda, saiu no jornal de cinco terras em redor com fotos desajeitadas porque até o fotógrafo se enfrascou, ao fim de uma dezena de flashadas andava a cantar de jarro de sangria na mão, no último dia quem serviu o festim festejou também até não puder mais, já ninguém sabia distinguir convidados de catering, santos valeram que ninguém morreu, três foram para o hospital, dois em coma e uma velha tia do noivo que se contorceu demais a dançar o foxtrot, puta da velha que tinha genica mas quedou-se por um artelho torcido!
Sem verem a desgraça que ficou para trás, desandaram os noivos em vôo para Cuba, a meca na moda para recém-casados, praias de areia a perder de vista, corais recheados de peixes coloridos por demais, veleiros e o mais importante em all-inclusive, camas lavadas, decoradas com animais feitos de toalhas, ibiscos espalhados, comida e bebidas coloridas a qualquer hora, ventoinhas gigantes em tectos altos coloniais, evitar maioneses para a diarreia não atacar, que o calor é imenso e pede praia todo o dia sem se perder pitada, banhos de mar e piscina com tanto cloro que até os olhos picam mas as duas semanas serão de enamoro sem preocupações, fins de tarde regados de mojitos e jantares de vinho fresco, marisco e peixe na brasa, cálidos e serviçais empregados que a custo mantêm a farda impecável evitando sinais de cansaço ou suor para que a gorjeta não seja tirada a ferros e o mais generosa possível.
Joaninha e Paquito transbordavam férias caribenhas pelos poros com o mar espelhado nos olhos.
Ao terceiro dia começou o esposo a mostrar sinais de enfado, após jantar temático da noite anterior em que desapareceu disse ele para ir vomitar, assolado por forte indisposição incontrolável que desconfiava fosse do ceviche pouco fresco. Joaninha estranhou porque nesse jantar comentou e elogiou precisamente a frescura do ceviche, mediante isso Paquito pôs a hipótese de alergia a qualquer coisa que não sabia bem o quê!
Os enjoos desapareceram mas nos dias a seguir Joaninha passava horas demais sozinha na praia a olhar o horizonte nebuloso esbranquiçado da canícula, dizia Paquito que tinha ficado com sensibilidade ao calor, que preferia estar em local arejado ou no quarto com o ar condicionado ligado! Joaninha não se apoquentou por demais pois imaginava uma vida com muito tempo para gozar os verões quentes no alpendre da sua quinta a escorrichar do copo vinho fresco frutado!
Os dias da lua-de-mel passaram lentos para ela, Paquito continuava a mostrar sinais de intolerância ao sol e quando algumas tardes Joaninha o procurava para tomarem uma bebida juntos, nunca o encontrou em parte alguma, achava estranho mas como as férias estavam a acabar, acabaria o mau estar das escapadelas sem sinal de vida, na quinta poderia ele ir passear mas nunca desaparecer!
Chegou o dia de apanhar o vôo de regresso, quando senão já no aeroporto, antes da porta de embarque, Paquito se declarou enviesado e disse que não iria com ela, ficava pela terra de Fidel, tão simples como ter encontrado a paixão noutras carnes! Joaninha ficou inchada de raiva, vermelha de vergonha pela troca descarada e recente demais, após nem um mês do enlace, ele disse-lhe que não ficasse tão chateada como isso, que iria encontrar amor novamente! Ao vê-lo partir, esticou-se toda para vislumbrar a megera que seria perfumada de peitos puxados ao pescoço e bronzeados, rabo rijo e pernas torneadas como só as latinas, quando senão se lhe pôs um sorriso no semblante, Paquito do outro lado do vidro, já na rua, mandou-lhe um beijo, piscou o olho e agarrou a mão de um cubano musculado e bem vestido!
Joaninha chegou à terra sem marido mas sem tristeza também, após pôr a aldeia de ouvidos a pino a ver se sabiam o que se tinha passado, acalmou as ordes e foi sincera com mentiras, Paquito gostava de homens, ela já o sabia antes de casar, foi inocente ao acreditar que o poderia fazer mudar!
A Joaninha ficou mulher enganada até ao fim da vida, nunca mais recuperou daquela lua-de-mel, deitou fora os discos de Havana Social Club e nunca mais se falou das Caraibas naquela casa!

29
Jul19

O não escritor

Rita Pirolita

Perguntou um jornalista desocupado, de sotaque chaiteiro, ao escritor de ascensão rápida já na velhice, assim um Agostinho.
- Como escreve?
- Ora essa, escrevo escrevendo, sem escrever, como querieis que o fizesse? Não há segredo para mim, para vós talvez haja.
- Sim mas o que perguntaria era onde se inspira, como começa um conto, uma folha em branco?
- Bom para já não escrevo em folhas, está tudo de memória, um ditado papagueado de longa data que passará aos meus filhos se os houver, haja rapariga fertil que se queira deitar com um velho que faz livros sem escrever, não tenha ela medo que não uso caneta que vase um olho em ataques de fúria ou máquina tac-tac que lhe atire à cabeça!
- Não me saciou a curiosidade ainda, onde vai buscar as histórias? São reais e vividas por si?
- Olhe meu caro perguntador são uma mistura cozinhada em sonhos de olho semicerrado.
- Foi nomeado para um prémio literário a nível internacional, o que sentiu acha que lhe trará mais visibilidade?
- Ora, ora...mais visibilidade se eu nem livros que se vejam escrevo, não escritores somos todos antes de começarmos a escrever e alguns assim morrem sem palavra escrita!
- Podemos então visitar o seu quarto onde dizem ter ninhos de pássaros, um quarto só para eles, longe dos predadores?
- Claro que sim, siga-me!
O jornalista em titubeo de miúdo curioso lá seguiu o homem quase a comer-lhe os calcanhares e com a cabeça a andorinhar para puder espreitar em primeira mão sem perder pitada por cima dos ombros do não escritor! Percorreram um corredor curto e eis senão que chegaram a um compartimento de janela escancarada, sem porta mas cujos pássaros também não transpunham a soleira, as sancas estavam cheias de ninhos de andorinha e o chão com montinhos de ramos ao longo do rodapé, uns em altura outros em baixura, mesmo sem predadores o instinto falava mais alto!
O jornalista de olho arregalado mediante tal piadeira e sujeira ácida de defecação de bicho de penas, pediu para tirar uma foto, a que o não escritor acedeu com jesto de desleixo a condizer com o desdém de piadola curiosa e manhosa do jovem jornalista.
Fartou-se o jornaleiro de flashar o quartinho da passarada e por último pediu ao velho homem se não se podia sentar no poço lá fora para mais uma foto que acompanharia o artigo no jornal da vila na tiragem próxima! Sentou o homem a ciática no gélido e musguento rebordo e logo um monte de pássaros saiu do quartinho a voarem em volta da sua cabeça, o jornalista estava em êxtase como se tivesse um exclusivo do louco da aldeia!
Foi-se o magano rapaz inexperiente com artigo pensou ele, de o impulsionar para a capital quando senão, depois de escrever uma página inteira a desdenhar entre dentes, humilde vida lá da terra, ao revelar as fotos tinha apenas um quarto modesto e asseado, de janela aberta com cortina esvoaçante e um senhor de fato domingueiro de mãos levantadas a pregar aos pássaros, qual Platão com uma cagadela fresca na lapela!

O jornalista levantou um sobrolho e depois um canto da boca que terminou em gargalhada de mão amarrada à barriga com as fotos atiradas ao ar, não dando o trabalho e tempo como perdidos, publicou o artigo com o título 'A importância dos idosos'.

29
Jul19

A cozinheira da TV

Rita Pirolita

Nasceu ela de famílias americanas, de mãe desinteressada que a deu a amamentar à criada que foi tendo 3 filhos pela altura da menina! Loira e gorducha brincava amiúde nos jardins da casa de relva cortada e penteada, mais a granel brincava sim no chão da cozinha em cima de um cobertor de lã que lhe picava levemente as pernitas em refego, ganharia a pele consistência e deixaria ela o cobertor mas até lá ia brincando ao som do cheiro dos refugados e chinfrim de panelas, pratos e talheres, uma feira de torresmos, bacon e bolos de fubá, às vezes um feijão com carne e ketchup só da marca Heinz, que o papá gostava de matar saudades das suas origens quando vinha a casa das longas viagens de capitão embarcadiço!
Foi crescendo com nome de princesa da Disney e stripper, Sheila era moderna e calmamente feliz sem precisar de decidir o que fazer no futuro, pensou ela por hábito que gostaria de ser dona de casa rica, apenas comandaria a mistura dos ingredientes, depois de lavados e cortados pelas criadas debaixo de calorosa supervisão com indicações, desde a posição da faca até à limpeza exigente de todos os utensílios!
Cresceu assim a preparar-se para receber gente em jantares de amigos do marido que não saberia nada dos seus desejos mais íntimos de ser famosa mas recatada, os filhos podiam vir como exibição dos seus dotes cuidadores ou como estorvo do brilho, não teriam importância nem muita nem pouca!
Antes de arranjar namoro tentou Sheila a sua sorte, no final da adolescência, num casting para a TV, um programa de culinária sem preparações cirqueiras, daquelas a deitar azeite de braço elevado a meio metro de altura! Saber cozinhar não seria muito importante e ela não sabia fazer nem mandar, não era preciso ser estrondosamente bonita, não queriam os senhores da TV fazer a associação evidente de comida e lascívia, ela não era baixa nem alta, nem gorda nem magra, nem bonita nem feia, não tinha traços marcantes mas sim uns ombros descaidos de postura submissa, um olhar de gato consolado e umas maminhas nem grandes nem pequenas mas levemente descaídas, o que lhe conferia um ar doméstico maternal que com um vestido a condizer aos óculos que lhe davam um ar professoral, seria a imagem perfeita para o programa de leves ambições, apresentar comida apenas, muita dela aparecia já feita em tabuleiros, levemente tostada, nem muito esbranquiçada nem muito queimada, dizia o produtor, 'Quero bolos e empadões tocados pelo sol!'
Assim passaram a ver aquela figurinha todas as manhãs de Sábado a seguir ao programa paroquial, a apresentar elaborados ou rápidos pratos quase sem sujar as mãos, vestido e avental a condizer, apenas repetia o gesto de ajeitar os óculos e de voz doce caseira lá ia repetindo as receitas escritas no teleponto, com um acento de sua graça e espontaneidade de vez enquando ao fazer referências à sua Naná que a punha sentada na cozinha a brincar enquanto preparava os ovos mexidos, a galinha de fricassé, a polenta, a aletria ou o creme flambê!
Sheila andava realizada até à ponta dos cabelos, sem grandes efusivas, o público reconhecia-a na rua, pelo seu ar aprumado apesar de ainda tímido, rasgavam elogios com muito respeito e alguma distância, nada de manifestos loucos como se fora estrela de Rock drogadita! Sheila tinha modesta importância e muito respeito e admiração por quem a seguia religiosamente aos Sábados que passaram a ser todas as manhãs, menos ao Domingo, dia seu de descanso que passava nos restaurantes a degustar as receitas que emitavam do seu programa que atingira um sucesso nunca pensado!
Em cada episódio da saga de comilice, Sheila ganhava luz própria no meio de tabuleiros que se enfiavam no forno, atrás dela como que por magia, formas de bolos que surgiam na bancada da cozinha, postos com delicadeza sem fazer barulho, vindo dos cantos inferiores da TV, tudo invadia as mãos da apresentadora de comida cozinhada, às vezes lá se via um dedo com empurrar só de unha, a colocar centrado em cena um prato ou uma tigela. Sheila era a rainha das refeições, tratada que nem princesa em conto de fadas, de mãos arranjadas e cabelos poupados ao vapor da panela que poderia ouriçar pontas ou encaracolar e encolher!
Sheila era a estrela que dava a cara pelo anónimo que além de lhe pôr as coisas a jeito em cima da bancada durante as emissões também cozinhava tudo nos estúdios, todos iam com vontade para o trabalho para sofregar o cheiro que logo pela manhã invadia as redondezas e à espera do final do programa para se sentarem a provar as iguarias!
Apresentadora e cozinheiro escondido que lhe inalava cheiro a nível das ilhargas, tinham a noção que o programa não vivia sem eles nem eles um sem o outro!
Passaram anos de sucesso até que o produtor morreu e os programas de cozinha foram substituidos por debates de futebol!
Sheila e o cozinheiro resolveram abandonar o estrelato mas não um ao outro, amor que durava desde que se viram pela primeira vez, ele apaixonado pela sua figura pouco relevante, ela pelas suas mãos pequenas e cuidadosas no trato da cozinha e da sua mais bela receita, ela, a sua amada!
Resolveram abrir um restaurante de apenas 4 mesas num pátio virado ao mar, lá para um recanto da Grécia, ela servia e as mãos dele continuavam a cozinhar e a colocar com delicadeza pratos em cima do balcão. Muitos queriam congratular o cozinheiro e lá saia ele de trás dos tachos para confraternizar com quem admirava o seu amor pela comida e por tão simpática esposa em tempos famosa e agora recatada e envolta nos encantos dos bichos do mar, de ceviche, de escabeche, com pimento ou olivas, envolvidos em folha de videira, figos e alcaparras, presunto e anchovas...
Teve o casal um par de gémeos, não se importou ele nem ela pela beleza amiúde dos rebentos ou por não terem nascido anões como o pai!

28
Jul19

Santa Ritinha

Rita Pirolita

A esteticista da aldeia sabia segredos por debaixo da pele, andava de carrinha comercial preta, estofos negrume contra os quais se sentava e fazia contrastar uma cabeleira loiro nórdico, quando saia do automóvel cor funerária a sua tez parecia de anjo brilhante em que pestanas, sobrancelhas e linha do cabelo eram de um matizado que desvanecia na pele sem sobressaltos. Todo o semblante tinha um filtro deificado que flutuava pelas ruas a passear não muita beleza mas alvura e levitação, caminhava a Ritinha das unhas e cabelos pelas ruelas a comprar na mercearia ou a beber à pressa um cafezinho bem tirado, metade de uma italiana, duas gotas em fundo de chávena, potentes e bombásticas para aguentar o frenezim de fornecedores e clientes chatas, muitas a fiado, andava em azáfama de permanentes, cremes, depilações, unhas e calos quando senão seu filho se meteu nas drogas, o cavalo das chinesas o destruiu, com ele foi definhando a alvura da esteticista mas antes de desaparecer sem rasto tomou ela dose overdósica e ali se ficou.
Enterraram a coitadinha no mesmo dia do filho, não podendo ser no mesmo buraco por frescura de cadáver, ao lado ficaram quase a segredar as desventuras e êxtases da vida e das drogas. Sem mais família se enterraram mãe e filho com pesar silencioso, que depressa se esqueceu.

Desde um mês para cá 3 cabeleireiros despontaram na aldeia que entretanto se fez vila, as cabeças passaram a andar mais loiras e as mulheres mais jeitosas e peladas nas dobradiças, cheirosas e cavalgantes, sapatos e lenços voluptuosos se passaram a vender nos espaços de beleza, decorados em esponjado lilás, rosa ou laranja, tudo o que fosse da vaidade e luxúria ali se praticava, nada como a defunta esteticista que em simples gestos e intenções tratava as epidermes e dava uns cortes aqui e ali, uns penteados de noiva e convidados e claro cortava sem puder recusar os cabelos de todos os querubins da aldeia, cachos dourados ou crespos morenos atapetaram o seu chão!
Passaram cinco anos sobre as ossadas, no desenterro ninguém se assumou para pagar a caixa dos restos, sem família comunicou o coveiro ao presidente da Câmara a intactez da senhora dona Ritinha, seu filho tinha-se desfeito até à mão direita que tendo escavado caixão e terra deu a mão à mãe talvez poucos dias depois de o pó o cobrir, pois unhas e pele estavam tratadas e arranjadas, teve a mãe tempo de as cuidar todos estes anos.

Foi levantada a santa intacta com a mão do filho dada, posta em redoma, aperaltada de branco champanhe com perolarizinhas a desenharem flores no peitilho que acabava em renda nefasta no pescoço, de seu corpo não se viam formas, emagreceu um pouco com o enterro a ponto de parecer tábua mas a mão de seu filho não largou, ali jazida ao lado esquerdo do coração!

Recebe 12 mil peregrinos ao ano, mil por mês em prol dos toxicodependentes e alcoólicos.
Perguntaram à santa de quantos vícios queria ser? Não pois não? Por isso nem ela nem outros fazem milagres, dêem-lhe o descanso eterno que morta já ela foi de desgosto, não quererá atender a outros para lá da vida, não tem mãos a medir com os exigentes penteados do céu, as nuvens tomaram formas de tudo desde a sua morte, tomara os viventes terem olhado em enamoro para o tecto que cobria a antiga aldeia mais que para múmias e santos de reza!

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