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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

Contos e Descontos

28
Jun19

Passarão de lata

Rita Pirolita
Gosto muito de viajar e até hoje não me posso queixar, já fui a muitos sítios e muitos deles distantes o suficiente para ter que me meter na barriga de um passarão de lata, para chegar ao destino tão desejado o mais rápido possível. 
Andar lá em cima a fazer de conta que voamos melhor que os pássaros não me agrada muito, precisamente por não ser natural e sim mecânico e por isso passível de falhas tão graves que quando a coisa corre mal, muito poucos restam para contar como foi, mas o desejo de visitar mundo é tão grande que esse medo só surge em lembrança leve o suficiente para não criar pânico, antes de tirar os pés do chão, depois é só dormir e comer o que dão, porque não há livro de reclamações e não se pode sair porta fora e ir ao restaurante do outro lado da rua, por isso seja o que venha é bom e dormir é a única solução para que o tempo passe mais rápido. 
Muitas vezes antes de descolar já estou cheia de sono, desconfio que põem qualquer coisa no ar que só me afecta a mim e uns quantos, porque não vejo muita gente com esta soneira e descontração. 
Depois de levantar voo, asseguro-me que acompanho a manobra até a coisa estabilizar lá em cima, como se a minha supervisão de co-piloto de classe muito económica evitasse qualquer falha, volto a dormir e só acordo com o cheiro de comida no ar.
Deito um olho aos programas disponíveis, sempre na esperança de não adormecer passados 10 minutos de um filme, que me levou 20 a escolher. 
A maioria das vezes suspiro de alívio por não ir enchouriçada entre dois gordos e outras dou pulos de alegria se der para me deitar em três bancos corridos, porque o metro quadrado aéreo é muito caro e gente comprida como eu sujeita-se à  tortura da cadeira. 
Depois de instalada é só dormir e babar que nem uma camela até escorrer para o pescoço, de boca escancarada, parece que morri há uma semana e já estou dura que nem uma carcaça. 
Só acordo uma última vez na descida para o paraíso, aliás são as únicas vezes que se pode dizer que descemos para o paraíso porque a última vez que se sobe é fatal, derradeira e não precisa de reserva.
27
Jun19

Pai que estais no céu...

Rita Pirolita

A humanidade recusa-se a crescer espiritualmente, daí a necessidade de imaginar um deus protector no seu castigo, que nos arrasta para sacrifícios dolorosos e mutiladores para atingir o perdão e a felicidade.

Um deus que pede sacrifício em troca de bem estar, é um ser dantesco que vive do medo e alienação dos seus seguidores. 
A libertação vem de dentro para fora, não é mensurável em tempo ou espaço fisico, por isso a minha liberdade não acaba quando começa a do outro, é uma liberdade partilhada sem domínios de propriedade. 
Na nossa dimensão limitada de seres humanos não temos capacidade para imaginar um Deus que nos liberte, apenas queremos estar presos no conforto de pouco decidir. 
Se pararmos de criar Deus, ficaremos abandonados à nossa pequenez e frágil condição no Universo.
Se Deus existisse tinha morrido muito, de tanto rir da figura que fazemos. 
Nunca vamos querer estar por nossa conta e destino, por isso acreditamos num pai redentor e confortável que perdoa e nos demite de responsabilidades.
Deus é o que se pode arranjar nas nossas limitações e finitude, somos os cruéis predadores que atacam a sua própria espécie sem proveito nem piedade, para lá do propósito da sobrevivência pura e dura, sinal de um atraso evolutivo profundo. 

Um dia seremos diferentes, quando existirmos noutra dimensão, libertos de informação genética contaminada.

23
Jun19

Peixe de apicultura

Rita Pirolita
 
 
Descobri por navegação aleatória nas redes sociais, que um amigo que já não vejo há mais de 15 anos se dedica à divulgação da aquicultura ou aquacultura e desde já aqui fica o esclarecimento do termo por parte de quem percebe da coisa:
Existem os dois termos, aquicultura e aquacultura, sendo este último um neologismo.
O vocábulo aquicultura vem registado na 10.ª edição do Grande Dicionário da Língua Portuguesa (1949-1958), de António de Morais Silva, designando o tratamento dos rios, lagos e esteiros, para a boa produção piscatória. No Dicionário Geral e Analógico da Língua Portuguesa (1948), de Artur Bivar, surge o significado de desenvolvimento, por processos apropriados, dos animais aquáticos úteis. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que está em linha, referem-se como acepções deste termo: preparação de lagos, rios, etc., para a boa reprodução dos animais aquáticos; criação de animais aquícolas dirigida cientificamente; o mesmo que aquacultura. Por sua vez, o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, refere estes dois significados: estudo e tratamento das águas doces como rios, lagos, para uma melhor aproveitamento económico de animais e plantas aquáticos com interesse para o homem; criação de animais, vegetais... aquícolas ou aquáticos dirigida cientificamente.
O vocábulo aquacultura ainda não aparece registado nos dois primeiros dicionários referidos. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista o termo como neologismo com as seguintes acepções: cultura em água; criação (de peixes, crustáceos, etc.) em viveiros aquáticos; o mesmo que aquicultura. O Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, refere estes significados: criação de peixes em viveiros com fins comerciais; cultura em água doce.
Finalmente, o Dicionário Aurélio Século XXI remete aquacultura para aquicultura, com o significado de arte de criar e multiplicar animais e plantas aquáticas.
Em síntese, o segundo termo (aquacultura) também é correcto. Trata-se de um neologismo. Há dicionários que apresentam os dois termos como sinónimos. No entanto, poderá dizer-se que o termo aquicultura é mais abrangente e de cariz mais técnico e científico. 
Maria Regina Rocha 21 de Agosto de 2001
 
E agora vou eu falar da minha experiência com estes peixinhos que apenas sei, são alimentados com merda, muita mesmo. 
 
Todos sabemos que a sobre-populaçao do planeta tem arruinado tudo e mais alguma coisa. 

Desde agricultura intensiva, poluidora e destrutiva dos recursos naturais à criação de tal forma elevada de proteína animal, que leva a aberrações de métodos e resultados apenas com fins lucrativos.
 
Embora todos justifiquem a exploração da terra com base na irradicação da fome e pobreza com a criação de mais postos de trabalho e mais comida, o que não me parece totalmente verdade e passo a explicar porquê
 
As grandes multinacionais agarram em nichos de mercado que se vendem facilmente em nome do lucro fácil e apoderam-se de áreas até ai mais ou menos auto-suficientes e exploram ao máximo a força de trabalho e a terra por ordenados escravizantes, dedicam-se assim a produzir mais comida, que os pobres que a cultivaram não podem comprar e os que a podem comprar desperdiçam. 
Ou seja destroem a terra e aumentam a pobreza e fome dos explorados que não têm poder nem conhecimento para se revoltar. 
Aparecem depois os intermediários com a conversa da treta sobre agricultura sustentável, biológica e a preços justos para produtor e consumidor. 
Nós destruímos a sustentabilidade natural do planeta e agora queremos fazê-la renascer de um monte de lixo tão tóxico que está quase morto, só para parecer fino e ganhar uns trocos???
Agricultores, pescadores e outros 'cultores' continuam a ser explorados e estão no fundo desta cadeia de chupistas que lucram com toda esta exploração de bens e almas.
A população mundial continua a viver a ilusão civilizacional, andamos cá há milhares de anos mas não somos assim tão evoluídos.
 
Não seria melhor controlar o aumento da população  e regular de forma eficaz as infrações à pesca e culturas intensivas, refreando assim o consumo e diminuindo o desperdício, teríamos produtos mais saudáveis que provocariam menos doenças diminuindo o controlo e lucro pornográfico dos laboratórios. 

Não seria melhor acabar com as guerras e não ter refugiados e sofrimento, nem gente voluntária que não ajuda o vizinho do lado nem sabe o que fazer da vida mas depois larga tudo e vai ajudar os coitadinhos lá longe, restos de população que os 'ricos' cospem e fazem questão de aumentar.  
 
Para que tudo funcionasse melhor não poderíamos ter o grande defeito de sermos feios, porcos e maus e andarmos a chafurdar na nossa própria merda em vez de vivermos dela com proveito e inteligência.
 
Todos contribuimos para que o mundo acabasse neste estado, os 'pobres' anseiam ser 'ricos' pelos mesmos métodos escravizantes de que são vitimas e que tanto contestam.

A responsabilização desta salganhada vem em forma de castigo primitivo e selvagem - Não temos para onde fugir!
 
Resumindo e concluindo, o peixe de aquacultura sabe mal e deixa-me muito mal disposta por isso, obrigada amigalhaço que não vejo faz muitos anos, por me transformares em vegetariana.
Se te encontrar conto-te das boas, por andares a ganhar dinheiro à custa de arruinar fígados com metais pesados. 
Dedica-te ao peixe de apicultura e a cardumes de cães!
 
 
15
Jun19

Desliguei

Rita Pirolita

Eu só fiz isto uma vez ao telefone e não acharam piada...
Ele - Desliga tu primeiro
Eu - Essa agora, se acabou a conversa despedimo-nos e desligamos ao mesmo tempo, não?
Ele - Tens coragem de desligar primeiro?
Eu - Tenho, amanhã ou depois podemos falar outra vez!
E não é que desliguei...

15
Jun19

Holisticamente falando

Rita Pirolita

Ai que eu adoro pessoas até ao dia...
De jantar combinado à última da hora, respondi a pergunta feita de como ia? Na medida do possível bem, a minha tiróide não tem dado tréguas, ando cansada como a porra, o coração parece um cavalo de corrida, quase sempre de diarreia mas isso não interessa porque não sou de me queixar e o que importa é que todos os dias sinto morte eminente mas ninguém nota e eu de facto não morro, respiro fundo conto até 10 e digo a mim própria que tenho que lidar com os sintomas, já que não quero por enquanto tomar medidas radicais de anulação desta glândula e não querendo satisfazer-me com o mal dos outros, digo na brincadeira que sou uma mulher doente mas há gente em tanto sofrimento por esse mundo fora que ao seu lado nem penso que tenho este pequeno desequilíbrio, que tento compensar todos os dias com uma postura muito prática!
O casalinho convidado para se juntar nessa noite, é todo do yoga suspenso e bebem combucha, sempre que se apanham separados criticam-se um ao outro, ela acha que ele quer mostrar ser mais radical e fundamentalista do que realmente é, num estilo de vida desligado dos bens materiais mas com casa a alugar em regime AL junto à praia, ele diz dela que é imatura, uma mimada a quem os pais dão tudo e não dá ponto sem nó. Ajuda dizer que estes dois têm mais de 40 anos e sem perceber comportam-se como duas crianças?...Não, pois não, calculei.
Continuando, ambos se tentam livrar da ideia que as famílias que têm são tóxicas para as suas relações, se calhar têm razão, apenas e só porque isso é um facto constante em quase todas as famílias mas às vezes custa reconhecer que os próprios têm níveis de toxicidade que carregam e descarregam sem dar conta! Este par maravilha, quando juntos, à falta de sinceridade mútua, sobra para quem está ao lado aturá-los e nessa noite saiu lenha farfalhuda!

Ele - Mas porque aceitas a condição de doença herditária (doença de Graves)? Está nas tuas mãos mudar isso, com alimentação e pensamento!

Este rapaz nem a filha consegue ver porque a mãe que vivia com ele a levou para o seu país de origem, infelizmente tem que aceitar e já lá vão 3 anos que não vê a sua menina a crescer! Imagino mesmo assim que nutra um amor incondicional pela filha e que o pensamento positivo o faça amenizar a tristeza da ausência da única filha que teve até agora.

Ela - Já procuraste outras abordagens mais holísticas! Lê a autora tal, eu nunca li mas acho que ela fala sobre doenças autoimunes e como tratar numa abordagem mais natural.

Com muita pena minha e detesto sentir pena, esta miúda tem um irmão a morrer com um tumor no cérebro, já tentou tratá-lo com uns cogumelos, melhorou mas agora dão-lhe um ano de vida, quero acreditar que foi um infeliz prognóstico e que os milagres acontecem!

Eu - Sou muito pragmática, reconheço a doença, decidi não tomar nenhuma medida radical que me faça depender de medicação até ao fim da vida, a saber, radiação ou operação, tento fazer uma alimentação saudável dentro do vegetarianismo, ultrapasso os sintomas com a calma que me é possível e acredito muito na mudança que posso operar em mim própria, observo muito mas não me deixo iludir com discursos esotéricos.

Ela - Sabes que eu também era como tu mas agora acredito mais no poder da mudança, até pela palavra. Um amigo meu costumava fazer palestras mas na vida real não conseguia ter a conduta adequada ao que pregava...

Eu - Isso não te leva a desconfiar que seja um falso mestre?

Ela - Não porque percebi que ele próprio estava em mudança e agora está mais em sintonia!

Eu - Pôs a carroça à frente dos bois, andou a enganar outros com palavras pouco sentidas e vividas e achas que isso é um processo de evolução e coerência aceitável e normal?...E ainda dizes que antes pensavas como eu, como se estivesses num patamar acima, se calhar eu é que já passei pelo teu patamar e não acho que seja superior mas sim que somos diametralmente opostas e convivo bem com a tua diferença e processo de evolução sem julgar!

Na despedida mandei-os holisticamente para o caralhinho! Esotericamente falando, claro!

 

13
Jun19

Gato Gabriel

Rita Pirolita

Conheci o gato Gabriel que pedia ao dono para o pôr num ramo baixinho e mesmo assim não sabia descer!

Para que queria este gato estar na árvore, se não sabia lá ir ou sair?...

12
Jun19

Toni das Flores

Rita Pirolita

Conheci o Toni nos Açores, afogador de tristeza e solidão em finos que lhe pagavam o trabalho de levantar mesas no bar de rua, um amor de homem, caçava polvos, espero que se mantenha vivo até o visitar outra vez, quando me despedi dele dei-lhe um abraço apertado e choramos os 2!

06
Jun19

Macrobiótica em frasco

Rita Pirolita
 
 

 

 

Por altura das minhas primeiras incursões no mundo da macrobiótica, aconteceu-me ser convidada para um jantar de Natal seguido de troca de prendas. 
Todos comemos bem, imagino eu, pela minha parte andava deliciada e deslumbrada com todas as coisas novas que descobria todos os dias, já não comia carne fazia algum tempo, acabei inevitavelmente num grupo de vegetarianos.
 
Quando chegou a hora de abrir as prendas, tocou-me um frasco pesado embrulhado em papel pardo, olhei para o frasco grande e transparente, sem rótulo, com uma pasta espessa e castanha lá dentro. 
Com ar de espanto e nojo, que muito dificilmente consegui disfarçar, em segundos dei comigo a pensar, 'mas quem é que teria a humilhante ou brilhante ideia, de cagar para um frasco pelo menos durante uma semana, a avaliar pela quantidade e depois oferecer a um desconhecido por altura do Natal?'
O produto apresentava um ar fresco, compacto e sem camadas visíveis, a cor era homogênea como se tudo tivesse sido misturado com parcimónia.  
 
Estes macrobióticos são tão saudáveis que até cagam todos os dias da mesma cor e depois em jeito de ritual de iniciação, oferecem aos aprendizes um exemplo da sua excelente forma física. 
Será que daqui a algum tempo, é suposto eu começar a oferecer com regularidade, merda enfrascada aos meus amigos e depois comparar, consistência, cheiro, cor e talvez até sabor, em casos de maior intimidade, até atingir o equilíbrio perfeito, fruto de uma apreciação continua que culmina com a sentença final do Guru da Merda? 
Estou eu nesta espiral de pensamentos, que se atropelam a uma velocidade sónica na minha cabeça, quando começo a ouvir vozes que parecem vir de um túnel e de repente estão mesmo ali em cima de mim, num tom que me acorda deste torpor de ignorância - é MISO!!! 
 
Ora, o miso é o Santo Graal dos macrobióticos, a famosa sopa de miso é dos alimentos mais completos que equilibra o ph do corpo e mal comparado ao vinho, quanto mais tempo de estágio, melhores propriedades adquire e por isso mais caro se torna. 

Já não consumo miso faz muito tempo mas até ao fim da vida, nem que morra com Alzheimer, não me vou esquecer o que é, nem precisar de provar para ter a certeza que não é merda. Namastê! 

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