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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

Contos e Descontos

30
Abr19

Olhar de esguelha

Rita Pirolita
 
Não gosto daquele olhar de soslaio lançado pela senhora da caixa do supermercado, quando me pede 1 euro para a associação das mulheres sardentas, das crianças ranhosas, dos cães com sete patas, dos cegos e pernetas, dos cabeçudos e orelhudos...e eu respondo com um 'não' simpático, timidamente baixinho, como se tivesse vergonha de assumir o destino a dar ao meu próprio dinheiro, vergonha de ser assaltada e sentir-me coagida a explicar porque é que não contribuo com determinada quantia seja qual for a causa, que não duvido seja boa mas tenho a certeza que o dinheiro não vai para quem mais precisa e sim para um off-shore de um rico qualquer, que precisa tanto de dinheiro como eu de sarna para me coçar. 
Aquela sobrancelha levantada de desaprovação e julgamento, com uma piscadela de águia para quem está atrás de mim na fila, não me intimida, só mostra sim que a senhorita não sabe de certeza destes pormenores de desvio de donativos e eu é que passo por cabra insensível?! 
Esta gente do olhar de esguelha recebe um ordenado de miséria, quando dou conta já ouço o bip-bip das compras a passarem no leitor de barras e não preciso de gastar saliva a dar explicações, pago e encho os bolsos a mais um milionário.
30
Abr19

Vazio sem silêncio

Rita Pirolita
Em dias quentes de verão é bom passar por escolas em férias e gozar o silêncio de recreios com gritos mortos do ano que terminou, chão fértil para gritos vivos do ano que se segue. 

Motéis que passam a nada no meio do nada por falência ou rotas abandonadas, palco de assassinatos, dealers, prostitutas, escapam pelas paredes caídas, gritos de prazer, gemidos de choro e deboche.

Esqueletos de fábricas, estaleiros e centrais nucleares, contorcem-se em ferrugem e suor cancerígeno.  

O deserto deixado pelos sacrifícios da guerra, o choro de experiências em hospícios, os gritos incómodos e desesperados de almas sofridas, perdidas no limbo da loucura que se agarram aos nossos braços em jeito de boleia, nos dão a mão a pedir carinho e compaixão e nos deixam um nó na garganta de impotência para mudar o passado.
29
Abr19

Casamento vegan

Rita Pirolita

Casou-se o par mais saudável que os amigos jamais tinham conhecido, vegans a toda a hora e a 100%, da cabeça aos pés passando pelo cão da casa, Buda de seu nome, exibia um pêlo brilhante e sedoso, resultado das almondegas de grão-de-bico e snacks de beterraba, o seu cocó era diferente de todos os outros patudos que lhe cheiravam o rabiosque com curiosidade e estranheza mas nunca com indiferença, parecia ele um ser superior na hierarquia dos canideos de postura de guru-yoguista indiano, caminhava como modelo na passerelle, uma pata à frente da outra, um cruzar de perna à lorde inglês, quando deitado de barriga no chão e um olhar de soslaio aos cães que passavam, sempre sem dar muita confiança, muito menos a humanos, poucos passavam no seu apertado crivo de critérios de cheiro e comportamento, batidas de coração ou depressão...

Acreditavam os donos que sendo nós aquilo que comemos a clarividência viria para todos os seres se a ausência de produtos animais não toldasse o discernimento, nem o mel resultante do aproveitamento escravo do esforço das abelhas, algum dia tinha entrado naquele lar arejado de feng-shui alinhado.

Alinharam também os chacras com as estrelas para marcarem o dia da cerimónia, foi difícil escolher data já que os deuses a Oriente bem como a Ocidente ou eram eternos ou não tinham assento de nascimento ou óbito, com tamanha confusão escolheram a data do desaparecimento da avó Bê, morte é transformação e reencarnação, que comece a festarola que os mortos virão também beber e comer! Para que serve viver sem comer ou beber, ora que a morte assim seja também, mesmo sem a vida por essência!

Começaram o envio de convites para quem gostavam de coração com a devida observação ressalvada, por um dia todos poderiam ser vegan.

Iniciaram as ausências de resposta com data a aproximar-se, os noivos sem saber o que fazer, esperaram em paz e paciência até ao dia da cerimónia no templo budista...

Após silêncio de 20 minutos, o cão Buda começou a agitar a cauda e a arfar de alegria, sentia nas patas a vibração de algo que lá vinha, começaram timidos a aparecer animais de todos os cantos do redondo templo, cabras tresloucadas, patos grasnadores e mudos, galinhas doidas e sem dentes, vacas, burritos lanudos e de repente um elefante de medidas portentosas como só uma baleia pode igualar, subiu ao altar, sentou-se e pronunciou o casal mais vegan do mundo, marido e mulher pelas leis do Yin-Yang, todos dançaram músicas de Bollywood com grinaldas na cabeça e pintas na testa, envoltos em nuvens de caril e açafrão, corcuma e tamarindo rolavam pelo chão, depois de cansado o corpo e alma cheia a avó Bê com a sua tromba deu por terminada a sessão de reencarnação de todos os convidados e mesmo ela estava com dores nos pés por causa do peso tonelar!

Todos recordaram aquele dia como de luz e paz tão intensas que até pareceu um sonho em mantra!

 

 

28
Abr19

Da nova à velha

Rita Pirolita

Havia um tasqueiro lá para os lados do sol nascido que fazia massadas de marisco de comer e chorar por mais, tinha uma garrafeira de vinhos e aguardentes invejada duma ponta à outra.

Fez dinheiro, muito dinheiro no tempo em que ainda se fazia riqueza com restaurantes à séria, não com essas modernices de pastelarias de rissol, chamuça, bolo de arroz e uma sopinha aguada, para cliente de escritório que come pouco e mal, no tempo em que quem enriquecia sem vender o que anunciava eram os vendedores de automóveis, até hoje!

O Malhadinhas servia bons bifes à casa, coelho à caçador, arroz de cabidela o ano todo e de berbigão na época, a Marrafinha, sua mulher fartou-se das facas e refogados e foi para casa fazer costurices, viu-se o homem obrigado a contratar cozinheira, veio nova e boa no ofício, continuou porta aberta de cheiro ambrósio que se espalhava pela rua, entrava nas casas, tocava os cabelos e abria as narinas até a boca salivar!

Surgiu romance por entre cebolas e pimentos, iscas de figado e peixe fresco, santolas e sapateiras, vinho e licores, dono e cozinheira assumiram o sarrabulho até que um dia uma dor começou na perna, ninguém ia ligando, cansaço talvez de horas a fio a fazer refeições, já sendo chata a moinha foi ao hospital e deram-lhe com o mal acima da cintura, pulmões, estava avançada a peçonha, só saiu pela porta da eternidade.

O Malhadinhas insistiu em mais uma cozinheira, saiu-lhe fraca, já cansado começou a vergar, tinha casa aberta muitas vezes para 3 mesas, fechou, em ficando tropego, surdo e de mulher nova enterrada acabou nos braços da também já velha Marrafinha!

28
Abr19

Palanque da noiva

Rita Pirolita

Dona Mariquinha tinha a loja de noivas mais requintada, na Lapa e vindos dos arredores, muitos passavam em frente à montra de sonho-nuvem, no interior havia um palanque que accionado por um pequeno interruptor debroado a dourado, rodava como caixa de música as puberes princesas, rodeado por uma meia lua de espelhos, todas as casadoiras sonhavam girar naquela bolacha de madeira, elevada do carpélio rosa-seco que abafava o chão.
Certo dia tiveram marcação da menina Matilde, bisneta dos viscondes de Alfaia, virgem ainda no odor, aperaltada de noiva subiu ao redondo e pequenino palco e a empregada, abismada de boca mongolóide com tamanha elegância de corte vindo de Paris, tocou desajeitada no pequeno botão que rodaria teatralmente a bela ansiosa, porque carga de água não se sabe, o mecanismo descontrolou-se, parecia uma pá de helicóptero, apanhado desprevenido o corpo magricelo, desequilibrou-se em aparatoso embate contra os espelhos que se partiram estrondosamente, um pedaço em forma de punhal alojou-se decidido na tempora da ruiva cabeça, sedas, tafetás, entertelas, giz macio de alfaiate, áspero tule, bruxas de alfinetes, toucados, grinaldas e véus, laços e ligas...tudo respingado de sangue.
Assim, a noiva que antes de casar já fez viúvo solteiro, foi a enterrar sem lhe conseguirem tirar a expressão escancarada da tamanha surpresa ao ver-se morrer na prova do vestido!
Dona Mariquinha mergulhou na tristeza de mil viúvos e sete mil noivas abandonadas em altar, doou todos os vestidos escapados da sangria às noivas de Sto. António, o que restou queimou e debandou para Bragança, a tratar da tia Deolinda, solteirona de profissão e rica antes de nascer, passou a loja ao farmacêutico Albino das Neves, seu primo afastado da Galiza, que montou negócio de pastilhas e elixires, óleos, poções e emplastros.
Desapareciam da farmácia de quando em vez, ligaduras, tinturas, álcoois e sulfamidas, houve até o Sr. Parreira, cliente habitual do óleo de figado de bacalhau, por anemia que se lhe pespegou antes da concepção, dizia ele, coisa dos antepassados que não tinham dinheiro para figado cru, que chegou a avistar um certo véu de neblina ali pela zona do corredor central que dava para o pequeno laboratório das traseiras, onde se preparavam em miligramas, pomadas e unguentos, seria pó-de-talco?...
Cada noiva de Sto. António que levou vestido de figurino da cidade oh lá lá, foi caindo em desgraça, defuntas, definhadas, abandonadas ou viúvas sem tostão.
Esta história que vos conto existiu pelo menos no mundo das núpcias...

25
Abr19

25 de Abril e campónios

Rita Pirolita
 

Já sem o Salazar na terra, vinha gente para Lisboa em busca de tudo sem saber o que esperar, alguns da olissiponense capital entretiam-se com pombais encarrapitados em prédios pejados de antenas de braços múltiplos, espantadas em formato espinha de peixe ou laçarote.
Quem por lá aterrou espavorido por néons e azáfama, trouxe hábitos às costas e nas mãos o calejo do campo, hortas à beira do asfalto, couves-árvore, porcos e galinhas, piqueniques de garrafão...
A cada feriado de santos ou épocas festivas chegavam comboios de menos gente que cestos de verga e embrulhos de papel pardo, o cheiro a fumeiro misturava-se ao suor e pó fuligento.
O provincianismo da sopeira casava com a brejeirice marialva do velhaco e apartava-se dos camaradas do 'pá'.

Pouco mudou e nada acabou logo ali à meia-noite de 25 para 26, finou-se o ditador por desacertar o rabo do assento para se multiplicarem sedentos ditadorzinhos de pelourecos!
25
Abr19

Maria Papoila

Rita Pirolita

Maria Papoila Agripina nasceu no tempo em que as Marias eram mães, as filhas deixariam de ser mães ou Marias, trouxe do campo a flor sangue para viver a Revolução do cravo na capital, as liberdades seriam criticadas em cochicho, mini-saias sem soutien, divórcios de papel passado, conviviam ao lado de hortas, viúvas tapadas, domésticas costureiras, peregrinos de Fátima e adoradores de Eusébio.
Escolas sem a cruz de Cristo ou retrato do ditador, o giz continuaria a chiar na ardósia gigante, o povo protesta e Maria Papoila vai crescer em liberdade contida, os capitães acolheram cravos da florista lisbonense.
Maria passou a Poppy, fez abortos ainda clandestinos, estudou na universidade de cabelo rebelde e calças pata de elefante, camisa florida de San Francisco, fumou maconha com amigos retornados, viu Cristo em LSD, teve muita fé sem Deus, trabalhou nas finanças uma vida inteira, teve 3 filhos e 2 divórcios, está reformada ainda a pagar casa e cada vez mais impostos, aproveitou a libertinagem das minorias e vive com a Maria Cravo Espiga.
A liberdade foi sonhada, a vida acabrunhada.

24
Abr19

Crónicas de uma Pirolita

Rita Pirolita

Este blog é um livro sem forma ou cheiro mas se for materializado um dia...já estou a imaginar, edição de capa rija com ilustrações do fantasma Moebius, prefácio de Mia Couto, sob o título “Crónicas de uma Pirolita", com uma errata gigante e um posfácio ainda maior que mais daria um segundo volume.

Por enquanto é só uma espécie de magazine online, de rápida edição, leitura e crítica, sim crítica, que quem anda à chuva molha-se e eu quero que me leiam mas não me bajulem com pijaminhas de cuspe, contestem ou simplesmente sigam-me mas não me persigam, concordem, detestem ou façam como eu costumo fazer com pessoas que não gosto muito, não lhes ligo, nunca me abundou paciência.

Não mudo ninguém, é um esforço ercúleo e desnecessário na base do desgaste, posso acrescentar ou delapidar, todos temos direito a seguir caminho de partilha, parvoíce ou partilha de parvoíce.

Sejam acutilantes, puxem da vossa inteligência e guardem a esperteza para fugir aos impostos! Quanto a violência gratuíta na faladura ou comentários de má criação, são como facadas que me dilaceram a alma, já estão todos a chorar? Eu não, não sou do tipo chorona, já chorei quase tudo na vida e não foi muito.

Espero que não se baralhem em turbilhão de parágrafos longos e texto corrido de pontuação nervosa...

Boas leituras com muita, pouca ou nenhuma vontade...

24
Abr19

Fiat Blog

Rita Pirolita

Fiat Lux e nasce o Blog...

Foi pensado em segredo faz um mês mas só agora decidi comunicar a mim própria, com a devida convicção e comprometimento, o nascimento deste desfile de contos que às vezes poderão acrescentar pontos em jeito de grito ou desabafo. 

Se não começar já a exorcizar por estas bandas, rebento e depois é ver números e parágrafos envoltos em fluídos corporais a sairem de todos os meus orifícios acima do pescoço, não será dimensão agradável de ver.

A equipa de palhaços amestrados já cá canta e dança e eu serei a brilhante apresentadora, contorcionista, prestidigitadora e trapezista deste circo de des-vaidades e des-contos, sem domar e muito menos maltratar animais ao longo desta promissora carreira de equilibrista na vida!

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